O herético Juízo Investigativo Adventista e seus perigos e distorções: Uma Análise Teológica à Luz da Bíblia



A doutrina do Juízo Investigativo é um dos pilares teológicos distintivos dos Adventistas do Sétimo Dia. Iremos busca analisar criticamente essa doutrina à luz das Escrituras, explorando suas origens, seus ensinamentos e as principais objeções levantadas.

Origens da Doutrina

A doutrina do Juízo Investigativo adventista foi formulada no século XIX e postula que, desde 1844, Deus está realizando um exame minucioso dos registros de vida de cada indivíduo para determinar quem é digno de salvação. Este ensino é baseado na interpretação de Daniel 8:14 e sustenta que o Santuário Celestial passou por uma purificação desde então.

Análise à Luz da Escritura

1. Ausência de Base Bíblica Direta:

A doutrina do Juízo Investigativo não encontra apoio e amparo explícito nas Escrituras. Passagens como Hebreus 9:24 indicam que Cristo entrou no Santuário Celestial, que significa, apenas acesso e posição de autoridade a direita do Pai, não que Cristo entrou de fato num templo físico ou espiritual afim de efetuar um suposta investigação, mas que  Ele está continuamente a direita do Pai na posição de Filho Exaltado, intercedendo pelos crentes (Hebreus 1:1-2; 7:25; 1Joao 2:1-2), A ênfase desta passagem também está na completa suficiência do sacrifício de Cristo. Ele não precisa repetir Seu sacrifício continuamente, como os sumos sacerdotes do Antigo Testamento faziam no tabernáculo terreno. Em vez disso, Ele entrou no Santuário Celestial (Presença de Deus Pai) uma vez por todas, oferecendo um sacrifício eterno que abrange todos os pecados, passados, presentes e futuros. Isso contradiz a ideia de um Juízo Investigativo que requer uma revisão contínua e minuciosa dos pecados individuais. Assim fica evidente que essas passagens bíblicas não menciona um Juízo Investigativo como descrito pelos Adventistas.

Tal doutrina é questionada também à luz de outras passagens na carta aos Hebreus, como Hebreus 4:16, que reafirma reforça a confiança que os crentes têm no acesso direto a Deus através de Cristo: 

"Cheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna". 

Isso indica que os crentes podem se aproximar de Deus confiantemente, sem a necessidade de um processo investigativo minucioso de suas vidas.

Além disso, Hebreus 10:19-22 destaca a liberdade e a confiança que os crentes têm em se aproximar de Deus: "Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela Sua carne". Essas passagens ressaltam a segurança da fé cristã e a suficiência do sacrifício de Cristo, negando a necessidade de um Juízo Investigativo contínuo e minucioso como ensinado na doutrina adventista.

Cito ainda outras passagens na carta aos Hebreus que refutam tal doutrina estranha:

Hebreus 7:25: "Portanto, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles." 

Esta passagem destaca que Jesus vive para interceder por aqueles que se aproximam de Deus através d'Ele. Não há indicação de que Ele esteja envolvido em um processo de investigação minuciosa dos pecados dos indivíduos, mas, em vez disso, Ele intercede continuamente pelos crentes.

Hebreus 10:10: "Nessa vontade, temos sido santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas." 

Esta passagem reforça a ideia de que o sacrifício de Cristo foi oferecido "uma vez por todas", indicando que não há necessidade de repetição ou revisão do sacrifício para a purificação dos pecados.

Hebreus 10:14: "Porque, com uma só oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados." 

Aqui, a escritura enfatiza que os crentes são aperfeiçoados "para sempre" pela oferta única de Cristo. Isso implica que a obra de Cristo é completa e suficiente para a santificação contínua dos crentes, sem a necessidade de um Juízo Investigativo adicional.

Hebreus 9:28: "Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação." 

Esta passagem ressalta que Cristo ofereceu-se uma vez para tirar os pecados de muitos, enfatizando novamente a singularidade e a suficiência de Seu sacrifício para a remissão dos pecados.

Essas passagens na carta aos Hebreus corroboram a ideia de que o sacrifício de Cristo é completo, final e suficiente para a salvação dos crentes. Não há base bíblica para a doutrina do Juízo Investigativo, que implica em uma revisão contínua dos pecados dos indivíduos após a morte de Cristo. Em vez disso, as Escrituras enfatizam a segurança da salvação dos crentes por meio da obra redentora de Jesus Cristo.

Portanto, ao examinarmos as passagens de Hebreus em conjunto, torna-se evidente que a doutrina do Juízo Investigativo não encontra apoio ou respaldo nas Escrituras, especialmente quando contrastada com a ênfase bíblica na suficiência do sacrifício de Cristo e na confiança que os crentes têm em sua relação direta com Deus por meio d'Ele.

2. Contradição com a Graça e Expiação de Cristo:

   A ênfase no Juízo Investigativo pode parecer contraditória ao ensino bíblico sobre a graça e a expiação completa de Cristo. Passagens como Romanos 8:1 afirmam que não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, questionando a necessidade de um juízo detalhado.

3. Interpretação Contextual de Daniel 8:14:

A chamada  doutrina adventista do Juízo Investigativo tem também suas raízes na interpretação de Daniel 8:14, que diz: "Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado". Os adventistas afirmam que esta passagem se refere ao período de 2.300 anos que, segundo eles, iniciou em 457 a.C. e terminou em 1844 d.C., marcando o começo do Juízo Investigativo.

No entanto, muitos biblistas e historiadores questionam essa interpretação, apontando para evidências históricas e contextuais que apontam para um significado diferente desta passagem. A interpretação adventista ignora o contexto imediato do versículo, que descreve uma visão profética envolvendo o império de Alexandre, o Grande, e seus sucessores, especialmente o rei seleucida Antíoco IV Epifânio.

Erro na Interpretação Adventista:

Contexto Histórico: O livro de Daniel foi escrito durante o exílio babilônico, e suas visões proféticas se referem a eventos contemporâneos e futuros para os hebreus daquela época. A visão em Daniel 8 refere-se a conflitos entre o reino de Alexandre, o Grande, e os reinos que surgiram após sua morte. Não há evidência histórica ou contextual que aponte para um cálculo de 2.300 anos a partir de 457 a.C.

Cumprimento no Tempo de Antíoco IV: Historicamente, a passagem em Daniel 8:14 tem sido interpretada como uma referência ao reinado de Antíoco IV Epifânio, um rei seleucida que profanou o Templo em Jerusalém em 167 a.C. O período de "duas mil e trezentas tardes e manhãs" se alinha com os 2.300 dias mencionados na passagem, que equivalem a cerca de 6 anos e 4 meses. Esta interpretação é consistente e plausível com os eventos históricos registrados e se encaixa de maneira mais precisa no contexto do texto.

Ausência de Conexão com 1844: Não há indicação no texto de Daniel 8:14 ou em qualquer outro lugar da Bíblia que esse suposto período de 2.300 anos como afirma a interpretação adventista, se estenda até 1844 ou esteja relacionado ao início de um Juízo Investigativo celestial. Esta é uma interpretação que foi desenvolvida posteriormente pelos adventistas, sem suporte direto nas Escrituras.

Portanto, ao analisar cuidadosamente o contexto histórico, é evidente que a interpretação adventista de Daniel 8:14 como a base para o Juízo Investigativo é questionável e não encontra respaldo sólido nos dados históricos e bíblicos disponíveis. A interpretação mais precisa se refere aos eventos do tempo de Antíoco IV Epifânio, proporcionando um entendimento mais claro e contextualmente relevante da passagem.

Conclusão

Portanto, é crucial que os crentes estudem as Escrituras por si mesmos, buscando uma compreensão sólida e bíblica da verdade. O entendimento correto dos ensinamentos bíblicos fundamentais, especialmente aqueles relacionados à salvação e à graça de Deus, é essencial para uma fé forte e segura em Jesus Cristo. Ficar ancorado na verdade das Escrituras protege os crentes contra falsas doutrinas que podem minar a confiança na obra redentora e transformadora de Cristo em suas vidas.

Ao examinarmos criticamente essa pseudo doutrina adventista, podemos fortalecer nossa compreensão da fé e buscar uma interpretação mais alinhada com os ensinamentos bíblicos fundamentais.

Em última análise, a fé é um caminho pessoal e cada indivíduo é encorajado a estudar as Escrituras por si mesmo, buscando uma compreensão mais profunda da verdade divina com o auxílio e iluminação do Espírito Santo, O Verdadeiro Intérprete da Palavra de Deus e de ferramentas essenciais como regras de hermenêutica e exegese, afim de obter uma interpretação mais acurada e fiel ao Texto Sagrado, evitando assim erros interpretativos, que pode resultar em falsas doutrinas. É através desse processo de busca sincera que podemos crescer espiritualmente e encontrar um alicerce sólido na Palavra de Deus.

Diogo J. Soares

DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

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