Estrutura do Argumento Cosmológico
O argumento cosmológico possui várias formas, mas as mais comuns são o argumento cosmológico Kalam, o argumento da contingência e o argumento de Tomás de Aquino.
1. Argumento Cosmológico Kalam
O argumento Kalam tem suas raízes na filosofia islâmica medieval, sendo revitalizado por filósofos contemporâneos como William Lane Craig. Sua estrutura básica é:
1. Tudo o que começa a existir tem uma causa.
2. O universo começou a existir.
3. Portanto, o universo tem uma causa.
• Análise do Argumento Kalam
1. Premissa 1: Tudo o que começa a existir tem uma causa.
Esta premissa é fundamentada na intuição metafísica e na experiência empírica de que coisas não surgem do nada sem uma causa. É um princípio amplamente aceito na ciência e na filosofia, pois sem causalidade, a compreensão do mundo se tornaria caótica.
2. Premissa 2: O universo começou a existir.
Evidências científicas, como a teoria do Big Bang, sugerem que o universo teve um início. Filósofos também argumentam que um passado infinito leva a paradoxos lógicos, como o paradoxo de Hilbert, que desafiam a coerência de um universo eterno.
3. Conclusão: Portanto, o universo tem uma causa.
A conclusão segue logicamente das premissas, levando à necessidade de uma causa transcendente, já que o próprio universo não pode ser a causa de sua existência.
2. Argumento da Contingência
O argumento da contingência, popularizado por filósofos como Leibniz, é baseado na distinção entre seres contingentes (que podem ou não existir) e seres necessários (cuja existência é obrigatória).
1. Tudo o que existe tem uma explicação para sua existência, seja em sua própria natureza ou em uma causa externa.
2. O universo é contingente e, portanto, necessita de uma explicação externa.
3. Essa explicação externa é um ser necessário, identificado como Deus.
• Análise do Argumento da Contingência
1. Premissa 1: Princípio da Razão Suficiente.
O princípio da razão suficiente afirma que nada acontece sem uma razão ou causa. Para Leibniz, o fato de algo existir em vez de nada deve ter uma explicação.
2. Premissa 2: O universo é contingente.
O universo, composto por entidades contingentes, poderia não ter existido. Sua existência requer uma explicação que não reside em seu próprio ser.
3. Conclusão: Ser necessário como explicação.
A explicação para a existência do universo é um ser necessário, que não depende de nada fora de si para existir, e que explica sua própria existência.
3. As Cinco Vias de Tomás de Aquino
Tomás de Aquino desenvolveu cinco vias para demonstrar a existência de Deus, das quais as três primeiras são cosmológicas:
1. Primeira Via: Movimento.
Tudo que está em movimento é movido por algo. Deve haver um motor primeiro, não movido por nada, que é Deus.
2. Segunda Via: Causalidade.
Existe uma cadeia de causas eficientes. Não pode haver uma regressão infinita de causas, necessitando uma causa primeira.
3. Terceira Via: Contingência.
Coisas contingentes existem, mas não poderiam existir. Portanto, deve haver um ser necessário, cuja existência é obrigatória.
Criação Ex Nihilo e a Natureza de Deus
A criação ex nihilo refere-se à ideia de que o universo foi criado "a partir do nada". Isso implica um criador que possui características específicas:
1. Atemporalidade e Transcendência.
Deus, como causa primeira, deve existir fora do tempo e espaço, pois o tempo e o espaço são propriedades do universo criado.
2. Personalidade.
O universo foi criado intencionalmente, sugerindo que a causa primeira é pessoal. Uma entidade impessoal não poderia escolher criar um universo ordenado.
3. Autoexistência.
Deus é autoexistente, significando que Sua existência não depende de outra causa. Ele é o fundamento necessário de toda a realidade.
4. Espiritualidade.
Como criador do universo material, Deus deve ser imaterial. A espiritualidade de Deus indica que Ele não é composto de matéria física.
Defesa da Irrefutabilidade do Argumento Cosmológico
O argumento cosmológico é baseado na racionalidade e na observação lógica do mundo. Algumas críticas comuns incluem:
1. Objeção da Regressão Infinita.
Alguns críticos sugerem que a regressão infinita de causas é possível. No entanto, isso leva a paradoxos e contradições, como o paradoxo de Hilbert, que desafiam a racionalidade lógica.
2. Questão de Quem Criou Deus.
O argumento cosmológico propõe que apenas coisas que começam a existir necessitam de uma causa. Deus, como ser necessário e eterno, não começou a existir e, portanto, não requer uma causa.
3. Apelo à Ciência Moderna.
Avanços científicos, como a teoria do Big Bang, fortalecem a ideia de que o universo teve um começo e, portanto, uma causa.
Citações Bíblicas como Evidência da Criação Divina
A Bíblia, A Palavra de Deus, como fonte teológica, também mostra revela Deus como Criador. Vários versículos reforçam a noção de um Deus que cria e sustenta o universo:
Gênesis 1:1: "No princípio, Deus criou os céus e a terra."
Salmos 19:1: "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos."
João 1:3: "Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito."
Hebreus 11:3: "Pela fé, entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é visível."
Essas passagens sublinham e revelam a Deus como o ser Supremo e Criador de tudo o que existe, alinhando-se com o argumento cosmológico de um Criador transcendente e pessoal.
Conclusão
O argumento cosmológico oferece uma defesa robusta e racional da existência de Deus. Através da análise de causas, contingência e criação, ele aponta para a necessidade de um ser transcendental que possui as características de atemporalidade, personalidade, autoexistência e espiritualidade. Embora existam objeções, elas frequentemente falham em refutar a lógica interna e a plausibilidade empírica do argumento. Em última análise, o argumento cosmológico permanece uma das mais convincentes demonstrações da racionalidade da crença em Deus.
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Referências
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Diogo J. Soares