Origens das Heresias Católicas


    
Diogo J. Soares



O Catolicismo Romano, como uma das tradições cristãs mais antigas e amplamente praticadas, passou por uma evolução significativa desde os seus primórdios. Ao longo dos séculos, uma série de práticas e doutrinas foram introduzidas, algumas das quais são desvios dos ensinamentos originais do cristianismo primitivo, encontrados no Novo Testamento. Neste artigo exploraremos a origem de algumas das principais doutrinas e práticas do catolicismo romano que são heréticas por não encontrarem respaldo nas Escrituras, a Palavra de Deus;  analisaremos também como elementos do paganismo influenciaram essas práticas, e apresentaremos refutações baseadas em citações bíblicas.

O Desenvolvimento das Doutrinas Católicas e a Influência Pagã

1. A Primazia de Pedro e o Papado

Histórico:

A crença na primazia de Pedro e no papado como um fundamento da autoridade da Igreja Católica Romana desenvolveu-se gradualmente. A ideia de que Pedro foi o primeiro bispo de Roma e, por extensão, o primeiro papa, ganhou força no século II. A carta de Clemente de Roma (c. 96 d.C.) é uma das primeiras a sugerir uma hierarquia e liderança centralizada mais ainda de forma bem incipiente; porém o papado como nós conhecemos nos dias atuais é criação bem posterior, e foi se estabelecendo ao longo dos séculos, com certo destaque do bispo de Roma, que foi se tornando mais influênte e passando a ter certo poderio na igreja católica ocidental, principalmente com a queda do Império Romano e o alvorecer da Idade Média.

Data: Século II

Influência Pagã:

O conceito de um líder central e infalível pode ser comparado às práticas dos imperadores romanos, que eram considerados pontífices máximos, um título que mais tarde foi adotado pelos papas.

Refutação Bíblica:

- Mateus 23:9: "Aqui na terra, não chamem ninguém de “pai”, porque só um é o Pai de vocês, aquele que está nos céus." (Versão NAA)

- 1 Pedro 5:1-3: "Aos presbíteros que estão entre vocês, admoesto eu, que sou também presbítero com eles... Apascentai o rebanho de Deus que está entre vocês, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; não por torpe ganância, mas de ânimo pronto."

2. Mariolatria

Histórico:

A veneração de Maria começou a se intensificar no século III, mas a prática de orar a Maria e a crença em sua intercessão e sua assunção corpórea ganharam formalidade no século IV com o Concílio de Éfeso (431 d.C.), que proclamou Maria como Theotokos, "Mãe de Deus".

Data: Século IV

Influência Pagã:  

A veneração de figuras maternas divinas era comum no paganismo, como a adoração de Ísis no Egito e Cibele em Roma. A elevação de Maria pode ter sido influenciada por essas práticas.

Refutação Bíblica:

- Lucas 11:27-28: "E aconteceu que, dizendo ele estas coisas, uma mulher dentre a multidão, levantando a voz, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste. Mas ele disse: Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam."

- 1 Timóteo 2:5: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem."

3. Oração pelos Mortos

A oração pelos mortos é uma prática que, ao longo dos séculos, se tornou uma parte integral da tradição da Igreja Católica Romana. Acredita-se que essa prática ajude as "almas no purgatório" a purificarem-se de seus pecados antes de entrar no céu.

Histórico:

Tradição Judaica apócrifa:

- 2 Macabeus 12:44-45: Este texto apócrifo, que faz parte do Antigo Testamento da Bíblia Católica, descreve Judas Macabeu orando pelos soldados judeus que morreram em pecado, pedindo a Deus que perdoasse suas transgressões. Embora não faça parte do cânon protestante, este livro fornece uma base para a prática na igreja romana.

Início da Prática na Igreja:

- Tertuliano e Cipriano de Cartago: No século III, estes Pais da Igreja mencionaram a oração pelos mortos como uma prática existente entre os cristãos. Cipriano, em particular, viu as orações pelos mortos como uma expressão de amor e comunhão contínua com aqueles que já faleceram.

- Concílio de Cartago (século IV): Embora não tratasse diretamente da oração pelos mortos, este concílio reconheceu a importância de orar por toda a comunidade de fiéis, vivos e falecidos.

Desenvolvimento Medieval:

- Agostinho de Hipona (354-430 d.C.): Agostinho argumentou que as orações dos vivos poderiam ajudar a aliviar as penas das almas no purgatório, uma ideia que se tornou central na teologia católica medieval.

- Concílio de Trento (1545-1563): Este concílio reafirmou a existência do purgatório e a eficácia das orações pelos mortos, formalizando a doutrina em resposta à Reforma Protestante.

Data: século III

Influência Pagã e Sincretismo

A prática de orar pelos mortos na Igreja Católica Romana pode ter sido influenciada por tradições pagãs e cultos aos ancestrais comuns em várias culturas antigas. Muitas religiões pagãs, como as do Império Romano e do Egito Antigo, incluíam ritos para os mortos, nos quais se acreditava que as ações dos vivos podiam influenciar o destino das almas na vida após a morte.

Exemplos de Sincretismo:

- Culto aos Ancestrais: Muitas culturas pagãs tinham práticas de culto aos ancestrais, onde se acreditava que as orações e oferendas dos vivos podiam ajudar os mortos no além. Essas práticas podem ter influenciado a adoção de orações pelos mortos no cristianismo primitivo.

- Ritos Funerários:Ritos que envolviam a intercessão pelos mortos eram comuns nas tradições pagãs, com cerimônias destinadas a assegurar uma passagem segura e tranquila para o outro mundo.

Refutação Bíblica

A prática de orar pelos mortos não encontra apoio claro nas Escrituras, e tal prática é condenada  pela Palavra de Deus.

- Hebreus 9:27: "E, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo."

   - Esta passagem enfatiza que após a morte, o julgamento é imediato, sem menção a um estado intermediário em que orações possam ter efeito.

- Lucas 16:19-31 (Parábola do Rico e Lázaro): 

  - Na narrativa do Senhor Jesus, o destino do rico e de Lázaro é selado após a morte, sem possibilidade de alteração por ações dos vivos. Isto sugere um julgamento imediato e definitivo.

- 2 Coríntios 5:8: "Mas temos confiança e desejamos, antes, deixar este corpo, para habitar com o Senhor."  

  - Esta declaração de Paulo implica que, para os crentes, estar ausente do corpo é estar presente com o Senhor, sem referência a uma fase de purificação através de orações.

- Filipenses 1:23: "Porque estou muito apertado entre os dois, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor."  

  - Paulo expressa seu desejo de estar com Cristo imediatamente após a morte, indicando uma transição direta e sem necessidade de intervenção dos vivos.

4. Transubstanciação

Histórico:

A doutrina da transubstanciação, que afirma que o pão e o vinho se transformam no corpo e sangue reais de Cristo durante a Eucaristia, foi formalizada no Quarto Concílio de Latrão em 1215 d.C., mas suas raízes remontam ao início da Igreja medieval.

Data: Século XIII

Influência Pagã:

Rituais de transformação de substâncias eram comuns em cerimônias pagãs, onde objetos físicos eram vistos como habitados por espíritos ou deuses.

Refutação Bíblica: 

- João 6:63: "O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida."

- 1 Coríntios 11:24-25: "E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo, que é partido por vós; fazei isto em memória de mim."

5. Purgatório

Histórico:

A doutrina do purgatório, um estado intermediário onde as almas são purificadas antes de entrar no céu, foi desenvolvida gradualmente nos escritos de teólogos como Agostinho no século IV e formalizada no Concílio de Florença em 1439.

Data: Século XV

Influência Pagã:

A ideia de um lugar intermediário de purificação após a morte é semelhante a conceitos encontrados nas religiões pagãs, como o Hades grego, onde almas eram purificadas antes de atingir a bem-aventurança.

Refutação Bíblica:

- Hebreus 9:27: "E, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo."

- Lucas 23:43: "E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso."

6. Indulgências

Histórico:

A prática das indulgências, que oferece remissão parcial ou total das penas do purgatório em troca de ações específicas, como doações ou peregrinações, foi formalizada na Idade Média e culminou no século XVI com a venda de indulgências, um dos fatores que precipitaram a Reforma Protestante.

Data: Século XVI

Influência Pagã: 

A prática de fazer oferendas para ganhar favores divinos era comum no paganismo, onde presentes aos deuses podiam aplacar a ira divina ou assegurar bênçãos.

Refutação Bíblica:

- Efésios 2:8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie."

- Atos 8:20: "Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro."

A Influência Pagã na Igreja Católica

A incorporação de práticas pagãs na igreja primitiva foi facilitada pela necessidade de tornar o cristianismo mais aceitável para as populações romanas pagãs. À medida que o cristianismo se espalhava pelo Império Romano, elementos das religiões locais eram sincretizados para facilitar a conversão. Esta abordagem sincrética levou à introdução de festivais pagãos, imagens e rituais no culto cristão.

Exemplos de Sincretismo:

1. Natal: A data de 25 de dezembro para a celebração do nascimento de Cristo foi escolhida para coincidir com o festival romano do Sol Invicto, uma celebração do solstício de inverno.

   2. Santos e Relíquias: A veneração dos santos e suas relíquias pode ser comparada à veneração de heróis e semideuses no paganismo.

Conclusão

Portanto como vimos, a história do catolicismo romano é complexa e repleta de desenvolvimentos doutrinários que foram influenciados por fatores culturais e históricos pagãos, que ao longo do tempo foram sendo absorvidos pela igreja. Embora muitos desses desenvolvimentos tenham sido feitos com a intenção de "fortalecer e unificar a fé", eles representam uma distorção dos ensinamentos originais do cristianismo, conforme encontrado no Novo Testamento. As refutações bíblicas apresentadas aqui destacam a tensão contínua entre a tradição herética romana e a Bíblia Sagrada, um debate que mostra como tais doutrinas são nocivas a verdadeira fé baseada apenas nas Escrituras, e não nas tradições humanas, um debate também que contínua a moldar o diálogo interdenominacional no cristianismo contemporâneo, evidenciando as verdades cristalinas da Palavra de Deus.

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Referências 

BAINTON, Roland H. A Reforma Protestante. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1987.

BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 2004.

CHADWICK, Henry. The Early Church. Londres: Penguin Books, 1993.

GONZÁLEZ, Justo L. A History of Christian Thought. Nashville: Abingdon Press, 1970.

KELLY, J. N. D. Early Christian Doctrines. Nova Iorque: Harper & Row, 1978.

SCHNEIDER, Herbert. The Influence of Greek Philosophy on Christian Theology. In: Christianity and Greek Philosophy. Nova Iorque: Charles Scribner's Sons, 1899.

Diogo J. Soares

DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

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