Pedro, o Primeiro Papa? Uma Análise Histórica e Teológica sobre a Origem do Papado Romano





Diogo J. Soares


A afirmação de que Pedro, o apóstolo, foi o primeiro papa da Igreja Católica Romana é uma crença amplamente difundida. No entanto, uma análise mais profunda das fontes históricas e bíblicas sugere que esta ideia pode não ter uma base sólida. Neste artigo examinaremos o desenvolvimento do papado romano, a partir de fontes históricas primárias e secundárias, além de citações bíblicas, para questionar a ideia de que o papado tem uma fundamentação apostólica direta com Pedro.

1. Análise das Escrituras: O Que a Bíblia Realmente Diz sobre Pedro?

A Bíblia menciona Pedro em várias passagens, algumas das quais são frequentemente citadas como evidência de sua primazia na Igreja. No entanto, uma leitura atenta dessas passagens revela que elas não sustentam a ideia de um papado centralizado. 

A passagem de Mateus 16:18 é frequentemente usada para afirmar a primazia de Pedro: "E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja". No entanto, muitos comentaristas, inclusive o presente autor, interpretam "esta pedra" não como Pedro, mas como a confissão de fé de Pedro em Jesus como o Cristo. Mesmo que se argumente que Pedro foi uma figura de destaque entre os apóstolos, não há evidência de que ele tenha sido investido com uma autoridade suprema ou infalível.

Além disso, em Gálatas 2:11, Paulo descreve um confronto com Pedro em Antioquia: "Mas, quando Pedro veio a Antioquia, resisti-lhe na cara, porque era repreensível". Esta passagem é significativa porque demonstra que Pedro não era visto como um líder infalível ou inquestionável na Igreja primitiva. Se Pedro tivesse a autoridade suprema de um suposto "papa", como é entendido hoje, seria inconcebível que Paulo o desafiasse publicamente.

Em Mateus 23:9, O Senhor Jesus faz a seguinte afirmação: "Aqui na terra, não chamem ninguém de “pai”, porque só um é o Pai de vocês, aquele que está nos céus." (Versão NAA)

2. As Fontes Históricas: A Evolução do Papado ao Longo dos Séculos

As primeiras fontes históricas sobre o cristianismo, como os escritos de Eusébio de Cesareia e os documentos do Concílio de Niceia (325 d.C.), mostram uma Igreja primitiva caracterizada por uma rede de bispos, todos vistos como iguais em autoridade. O historiador Eusébio, em sua obra "História Eclesiástica", não menciona uma autoridade centralizada do bispo de Roma sobre a Igreja universal. Pelo contrário, ele descreve um sistema de liderança colegiada onde várias cidades, como Antioquia, Jerusalém, Alexandria e Roma, tinham seus próprios bispos.

O primeiro uso formal do título de "Papa" para o bispo de Roma não aparece até o século III, e mesmo assim, era um título honorífico que também poderia ser aplicado a outros bispos. O desenvolvimento do papado como uma instituição de autoridade centralizada ocorreu ao longo dos séculos IV e V, à medida que o Império Romano declinava e a Igreja de Roma buscava afirmar sua primazia. O estudioso protestante Philip Schaff observa em sua obra "History of the Christian Church" que o desenvolvimento do papado foi um processo gradual e que, inicialmente, não existia um conceito de autoridade papal como é entendido atualmente.

3. Citações dos Pais da Igreja e o Conceito de "Primazia Petrina"

Os Pais da Igreja, como Cipriano de Cartago, Orígenes e Tertuliano, mencionam Pedro em seus escritos, mas não como um papa com autoridade suprema. Por exemplo, Cipriano de Cartago, em seu tratado "Sobre a Unidade da Igreja", reconhece a importância de Pedro, mas também defende a igualdade de todos os bispos. Para Cipriano, a unidade da Igreja não dependia de um bispo com autoridade suprema, mas da comunhão entre os bispos.

Orígenes, em seus comentários sobre o Evangelho de Mateus, interpreta a "pedra" sobre a qual a Igreja é construída não como Pedro em si, mas como a confissão de fé que Pedro fez. Tertuliano, em "De Pudicitia", rejeita explicitamente a ideia de que Pedro tinha uma primazia de jurisdição sobre os outros apóstolos. Ele desafia a visão de que Pedro era o líder infalível e único da Igreja.

4. A Falta de Fundamentação Bíblica e Histórica para o Papado

A evolução do papado, como reconhecido pela historiografia moderna, é um desenvolvimento que ocorreu ao longo de séculos e foi profundamente influenciado por fatores políticos e sociais. O conceito de infalibilidade papal, por exemplo, não foi formalmente declarado até o Primeiro Concílio Vaticano em 1870. Essa doutrina, que afirma que o papa é infalível quando pronuncia ex cathedra em assuntos de fé e moral, não encontra respaldo nas Escrituras nem nos escritos dos primeiros Pais da Igreja.

Historiadores como Hans Küng, em sua obra "The Catholic Church: A Short History", argumentam que o papado romano como uma instituição centralizada foi uma construção histórica e não uma continuação direta do ministério de Pedro. Segundo Küng, a ideia de um bispo de Roma com autoridade universal é uma interpretação anacrônica dos eventos históricos da Igreja primitiva.

5. Conclusão: Desmistificando a Origem do Papado

Portanto, a análise das evidências bíblicas e históricas sugere que a ideia de que Pedro foi o primeiro papa da Igreja Romana é uma construção posterior, sem fundamentação nos documentos mais antigos da Igreja. As Escrituras não fornecem evidências claras de uma primazia papal, e as fontes históricas indicam que o conceito de papado centralizado se desenvolveu gradualmente, influenciado por circunstâncias políticas e sociais.

Por fim, para uma compreensão precisa do desenvolvimento da Igreja Cristã e do herético conceito de papado, é essencial considerar tanto as evidências bíblicas quanto as fontes históricas, evitando interpretações simplistas ou anacrônicas. Somente através de um estudo rigoroso e crítico podemos entender plenamente as complexidades e as nuances da história e da teologia cristã.


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Fontes e Referências

BÍBLIA. Novo Testamento. Mateus 16:18; Gálatas 2:11.

CIPRIANO DE CARTAGO.  Sobre a Unidade da Igreja. In: WILES, M. F.; SANDBROOKE, E. J. Documents in Early Christian Thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1975.

EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. In: MAIER, Paul L. Eusebius: The Church History. Grand Rapids: Kregel Publications, 1999.

KÜNG, Hans.The Catholic Church: A Short History. London: Weidenfeld & Nicolson, 2001.

ORÍGENES. Comentário sobre o Evangelho de Mateus. In: HEINE, Ronald E. Origen: Commentary on the Gospel According to Matthew, Books 10–14. Washington: The Catholic University of America Press, 2018.

SCHAFF, Philip. History of the Christian Church. Volumes I-IV. Peabody: Hendrickson Publishers, 2006.

TERTULIANO. De Pudicitia. In: EVANS, Ernest. Tertullian’s Homily on Baptism: The Text Edited, with an Introduction, Translation, and Commentary. London: SPCK, 1964. 

Diogo J. Soares




DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

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