Os Erros Escatológicos do Ensino Pós-Milenista: Uma Análise Bíblico-Teológica






O estudo da escatologia, a doutrina das últimas coisas, sempre foi um dos temas centrais e complexos no campo da Teologia. Entre as várias visões escatológicas, o pós-milenismo se destaca por sua interpretação otimista em relação ao futuro da humanidade, postulando que o Reino de Deus será progressivamente estabelecido na terra antes da segunda vinda de Cristo. No entanto, essa visão enfrenta críticas significativas tanto do ponto de vista exegético quanto teológico. Neste artigo analisaremos os principais erros escatológicos do ensino pós-milenista, considerando a base bíblica para uma interpretação mais coerente do futuro, conforme ensinado nas Escrituras.

Definição do Pós-Milenismo

O pós-milenismo, em termos simples, sustenta que o milênio (período de mil anos mencionado em Apocalipse 20:1-6) não deve ser entendido de forma literal, mas sim como uma era simbólica de paz e prosperidade que será inaugurada por meio do avanço do Evangelho no mundo. De acordo com essa perspectiva, Cristo retornará após o milênio, ou seja, no fim dessa era, para julgar os vivos e os mortos, consolidando a plenitude de Seu Reino.

Essa visão contrasta principalmente com o pré-milenismo, que ensina que Cristo retornará antes de um milênio literal para estabelecer Seu Reino, e com o amilenismo, que nega a existência de um milênio físico e literal, interpretando o "milênio" como o reinado espiritual de Cristo entre Sua primeira e segunda vinda.

Análise Crítica dos Erros Escatológicos do Pós-Milenismo

1. Interpretação Incorreta do Milênio em Apocalipse 20:1-6

O primeiro erro fundamental do pós-milenismo reside em sua abordagem alegórica para Apocalipse 20:1-6. O pós-milenismo vê o milênio como um período simbólico de crescimento espiritual e social, mas a exegese do texto parece sugerir outra perspectiva. Apocalipse 20 descreve claramente a sequência de eventos envolvendo a prisão de Satanás, o reinado dos santos e a libertação de Satanás antes da batalha final. Esta sequência parece estar mais alinhada com uma interpretação literal ou pelo menos cronológica do milênio, o que é mais compatível com o pré-milenismo.

Em 2 Pedro 3:8-10, a Escritura fala sobre o "Dia do Senhor" como um evento súbito e cataclísmico, e não como um processo gradual de melhoria mundial, sugerindo que o retorno de Cristo será acompanhado por um julgamento global, não por um período de paz progressiva e gradual. A ideia de que o mundo irá gradualmente melhorar até a segunda vinda de Cristo, defendida pelo pós-milenismo, parece entrar em conflito com a natureza abrupta e dramática do retorno de Cristo conforme descrito nas Escrituras.

2. Incompatibilidade com o Ensino Bíblico sobre o Estado do Mundo

O pós-milenismo apresenta uma visão extremamente otimista do futuro, acreditando que o Evangelho triunfará progressivamente até que toda a terra seja cristianizada. No entanto, essa visão não encontra suporte claro nas Escrituras. O próprio Cristo advertiu que nos últimos dias haveria grande tribulação e apostasia. Em Mateus 24:12-14, Jesus fala sobre o aumento da maldade e da perseguição aos cristãos antes de Seu retorno, sugerindo um cenário mais sombrio e difícil, em vez de uma era de prosperidade e paz.

Paulo, em 2 Timóteo 3:1-5, descreve os "últimos dias" como tempos de dificuldades, com as pessoas se tornando amantes de si mesmas, rebeldes, ingratas e sem afeto natural. Este panorama contrasta com a visão pós-milenista de uma gradual melhora moral e espiritual do mundo. O apóstolo Pedro também alerta que haverá zombadores nos últimos dias, andando segundo suas próprias paixões e negando a segunda vinda de Cristo (2 Pedro 3:3-4).

3. A Negligência do Ensino sobre a Grande Tribulação

Outro erro significativo do pós-milenismo é a minimização ou reinterpretação da Grande Tribulação. A Escritura deixa claro que haverá um período de intensas dificuldades antes do retorno de Cristo. Em Mateus 24:21-22,  O Senhor Jesus declara que haverá uma "grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá." Este período de tribulação, que precede a segunda vinda de Cristo, parece incompatível com a noção pós-milenista de um mundo em constante progresso rumo à justiça e à paz.

Adicionalmente, Apocalipse 13 descreve o poder e a influência da besta durante os últimos tempos, algo que parece contrastar com a expectativa pós-milenista de um domínio progressivo do Reino de Deus na história antes da segunda vinda. O pós-milenismo, ao negligenciar essa doutrina bíblica da Grande Tribulação, acaba por oferecer uma visão excessivamente otimista e desconectada do testemunho escatológico das Escrituras.

4. Problemas com a Doutrina da Ressurreição e do Julgamento Final

O pós-milenismo também enfrenta dificuldades em conciliar sua escatologia com os ensinos bíblicos sobre a ressurreição e o julgamento final. A Bíblia ensina claramente que a ressurreição dos mortos ocorrerá no final dos tempos, juntamente com o julgamento de todos os povos (João 5:28-29; Apocalipse 20:11-15). A sequência pós-milenista, que vê o milênio como uma era simbólica de progresso antes do retorno de Cristo, não consegue integrar adequadamente essa cronologia bíblica.

Além disso, em 1 Coríntios 15:24-26, Paulo descreve o fim como o momento em que Cristo destruirá todo governo, autoridade e poder, e entregará o Reino a Deus Pai após a ressurreição e o julgamento final. Isso sugere que o estabelecimento completo do Reino de Deus e o fim do mal são eventos que ocorrerão após a vinda de Cristo, não antes, como sugere o pós-milenismo.

Conclusão

O pós-milenismo, embora tenha sido uma visão escatológica que teve certa popularidade em períodos históricos específicos, enfrenta vários problemas graves à luz de uma análise bíblico-teológica rigorosa. Sua interpretação alegórica do milênio, sua visão otimista e progressiva do futuro, sua negação da gravidade da Grande Tribulação e sua dificuldade em harmonizar a cronologia bíblica da ressurreição e do julgamento final, colocam esta visão em desacordo com o ensino das Escrituras. A escatologia cristã, conforme revelada na Bíblia, aponta para um futuro de dificuldades e tribulações antes da segunda vinda de Cristo, seguido pelo julgamento final e pelo estabelecimento definitivo do Reino de Deus.

Portanto, o pré-milenismo histórico parecem estar mais de acordo com a narrativa bíblica geral, apresentando uma visão mais coerente com o testemunho das Escrituras sobre os últimos tempos e o retorno de Cristo. Em última análise, o erro central do pós-milenismo é a sua subestimação da seriedade do pecado e da resistência contínua do mundo ao Reino de Deus até o momento da intervenção final de Cristo.

________________________________

Referências

BERNARDES, João. Emanuel: Deus conosco. 3. ed. São Paulo: Editora Vida, 2018.

BRINCKMAN, Geoffrey W. The History and Future of Premillennialism. Grand Rapids: Baker Academic, 2014.

CAMPBELL, Thomas. Eternal Hope: A Biblical Study of the Resurrection. Grand Rapids: Zondervan, 2012.

CHURCH, Kevin. Four Views on the Millennium and Beyond. Grand Rapids: Zondervan, 1996.

EARLEY, Roy A. Eschatology: The Future of the Church and the World. Wheaton: Crossway, 2007.

FISHER, E. Stanley. Eschatology: A Biblical Study of Last Things. Wheaton: Tyndale House Publishers, 2004.

HARVEY, Peter R. Revelation and the End of All Things. Downers Grove: IVP Academic, 2005.

KENNEDY, Paul. The Postmillennial Hope: A Future for the Church. Grand Rapids: Baker Books, 2008.

LOUISIANA, G. K. A Commentary on the Book of Revelation. Chicago: Moody Press, 2007.

MILLENNIANISM, William P. The Millennium: Its History and Significance. New York: Zondervan, 1995.

PETERSEN, J. Richard. Eschatology. Downers Grove: InterVarsity Press, 2001.

SANDERS, E. W. Paul and the Millennial Kingdom. Grand Rapids: Eerdmans, 1977.

VANDEMARK, George. The Christ of Revelation. Downers Grove: InterVarsity Press, 1978.

WILLIAMS, Mark. Revelation: A Shorter Commentary. Downers Grove: IVP Academic, 2014.

YOUNG, Leighton. The Economics of Revelation. Nashville: Thomas Nelson, 1980.

Diogo J. Soares




DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem