O Calvinismo, uma tradição teológica derivada dos ensinos de João Calvino, tem sido uma corrente proeminente na história da teologia reformada. Seus principais pilares são geralmente resumidos no acrônimo TULIP, representando suas cinco doutrinas centrais: Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos. Embora o Calvinismo tenha influenciado grandemente o pensamento cristão ocidental, muitos teólogos, ao longo dos séculos, têm identificado falhas teológicas em suas premissas. Neste artigo buscaremos brevemente expor alguns dos erros teológicos do Calvinismo à luz das Escrituras, utilizando uma abordagem bíblico-teológica a luz da Palavra de Deus.
1. Depravação Total
A doutrina da Depravação Total ensina que o ser humano, após a Queda, é completamente incapaz de buscar a Deus por sua própria vontade. De acordo com Calvino, todos os aspectos da natureza humana estão corrompidos pelo pecado, de tal forma que o homem não possui nem o desejo nem a habilidade de se voltar para Deus sem uma intervenção divina.
No entanto, uma análise das Escrituras revela uma visão mais equilibrada da condição humana. A Bíblia reconhece a profundidade da corrupção do pecado e da depravação humana, mas também afirma que o ser humano com o auxilio da Graça Divina (Graça Preveniente) ainda possui a capacidade de responder à revelação de Deus capacitado por Esta. Em Deuteronômio 30:19, Deus exorta Israel a escolher entre a vida e a morte, entre a bênção e a maldição: "Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência." Esta exortação seria incoerente se o ser humano fosse totalmente incapaz de escolher.
Além disso, em Isaías 55:6, o profeta ordena: "Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto." Este chamado à busca de Deus implica que o ser humano possui a capacidade de responder ao convite divino.
Romanos 2:14-15 também sugere que a lei de Deus está escrita no coração dos gentios, indicando que, mesmo em sua condição caída, o homem ainda pode discernir o bem do mal mediante a Graça de Deus. Portanto, a doutrina da Depravação Total radical, falha em reconhecer a tensão bíblica entre a corrupção do pecado e a responsabilidade humana.
2. Eleição Incondicional
O Calvinismo sustenta que Deus, desde a eternidade, escolheu alguns para a salvação e outros para a condenação, sem qualquer consideração de méritos ou respostas humanas. Esta doutrina, conhecida como Eleição Incondicional, baseia-se, em grande parte, em textos como Efésios 1:4, que afirma que Deus nos escolheu "antes da fundação do mundo."
Entretanto, essa leitura ignora outros aspectos das Escrituras que ressaltam o papel da fé e da resposta humana na eleição. Em João 3:16, lemos que "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Aqui, a condição para a salvação é claramente a fé, não uma eleição arbitrária.
Além disso, 1 Timóteo 2:3-4 afirma que Deus "deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade." Este desejo universal de Deus por salvação parece estar em conflito com a ideia de que Ele escolheu incondicionalmente apenas alguns para serem salvos.
Ainda em Romanos 10:13, Paulo escreve: "Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo." Este chamado é universal e está condicionado à resposta do indivíduo, demonstrando que a salvação está acessível a todos os que, de coração sincero, buscarem ao Senhor.
3. Expiação Limitada
A Expiação Limitada ensina que Cristo morreu apenas pelos eleitos, ou seja, a obra redentora de Cristo é eficaz somente para aqueles que foram previamente escolhidos por Deus. Essa doutrina encontra sustentação em textos como João 10:15, onde Jesus afirma: "Eu dou a minha vida pelas ovelhas."
Contudo, a própria Bíblia fornece uma base ampla para uma expiação ilimitada, ou seja, a ideia de que Cristo morreu por todos. Em 1 João 2:2, lemos: "Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." Este versículo claramente refuta a noção de que a expiação é limitada a um grupo específico de pessoas.
Além disso, em 2 Coríntios 5:14-15, Paulo escreve: "Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos." A repetição do termo "todos" enfatiza a universalidade da obra redentora de Cristo.
Portanto, a doutrina da Expiação Limitada falha em harmonizar-se com a abundante evidência bíblica de que a oferta de salvação através de Cristo é para toda a humanidade, ainda que sua eficácia seja experimentada apenas por aqueles que respondem com fé.
4. Graça Irresistível
A doutrina da Graça Irresistível sustenta que aqueles a quem Deus predestinou para a salvação não podem resistir ao Seu chamado. Uma vez que Deus os tenha escolhido, Sua graça atuará de forma irresistível, levando-os inevitavelmente à salvação.
No entanto, vários textos bíblicos indicam que o ser humano pode resistir à graça de Deus. Em Atos 7:51, Estêvão repreende os líderes religiosos por "sempre resistirem ao Espírito Santo." Se a graça de Deus fosse irresistível, essa resistência não seria possível.
O Senhor Jesus também lamenta sobre Jerusalém em Mateus 23:37, dizendo: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste!" Este versículo demonstra que a vontade de Deus pode ser frustrada pela recusa humana.
Portanto, a doutrina da Graça Irresistível parece subestimar o papel do livre-arbítrio humano na resposta à oferta da salvação.
5. Perseverança dos Santos
Por fim, a Perseverança dos Santos afirma que aqueles que foram eleitos e regenerados por Deus irão, inevitavelmente, perseverar até o fim e nunca perderão sua salvação. Esta crença está ancorada em textos como João 10:28-29, onde O Senhor Jesus diz que ninguém pode arrebatar as Suas ovelhas da Sua mão.
Entretanto, há várias passagens nas Escrituras que alertam sobre a possibilidade de apostasia. Em Hebreus 6:4-6, lemos: "É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento." Esta passagem sugere que é possível experimentar a graça de Deus e, mesmo assim, cair da fé.
Além disso, em 2 Pedro 2:20-22, o apóstolo adverte que aqueles que se afastam do Senhor depois de terem conhecido o caminho da justiça estão em uma condição pior do que antes. Este ensino claramente contradiz a ideia de que a salvação é garantida independentemente da continuidade da fé.
Conclusão
O Calvinismo, com suas cinco doutrinas centrais, oferece uma visão sistemática da salvação que, à primeira vista, parece biblicamente coerente. No entanto, à luz das Escrituras, encontramos diversos pontos problemáticos em suas proposições. A Depravação Total Radical calvinista subestima a capacidade humana de responder à graça de Deus com a capacitação e auxilio da Mesma (Graça Preveniente), a Eleição Incondicional ignora o apelo universal do evangelho, a Expiação Limitada limita indevidamente o alcance da obra redentora de Cristo, a Graça Irresistível desconsidera o livre-arbítrio, e a Perseverança dos Santos falha em reconhecer os avisos bíblicos sobre apostasia.
Portanto, é fundamental que continuemos a reavaliar nossas doutrinas à luz das Escrituras, assegurando que a nossa teologia seja biblicamente fundamentada e teologicamente consistente.
_________________________________
Referências
CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Tradução de Erich Przywara. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1984.
HOLT, David L. Against Calvinism. Wheaton: Crossway, 2016.
OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Reflexão, 2009.
PETERSON, Robert A. Grace, Faith, and Free Will. Phillipsburg: P&R Publishing, 1993.
WELCH, Iain. Living Beyond Calvinism. Downers Grove: InterVarsity Press, 2016.
ROSEMOUTH, Milton. The Ultimate Slavery: Theocratic Government and Biblical Freedom. San Francisco: HarperOne, 2006.
JOHNSON, Luther E. The Reformed Tradition: A Theology of Identity. Grand Rapids: Baker Academic, 2017.
VAN AARLEEN, William. The Depravity of Man. Nashville: Kingsway, 1987.
SILVA, Maria Helena. A Predestinação segundo a Bíblia. Rio de Janeiro: Editora Fiel, 2010.
FERNANDES, David S. Calvinismo e Liberdade Humana: Uma Crítica Teológica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012.
Diogo J. Soares