A devoção a Jesus no cristianismo primitivo tem sido objeto de intenso debate acadêmico. Enquanto alguns estudiosos defendem que essa devoção era uma característica tardia, outros incluindo o presente autor, apontam evidências robustas de que Jesus era venerado como uma figura divina nas primeiras comunidades cristãs. Neste artigo temos como objetivo explorar a natureza e a profundidade dessa devoção, avaliando as evidências textuais e históricas e dialogando com os principais estudiosos no campo. Nossa análise sugerirá que a veneração a Jesus como Senhor e divindade surgiu muito cedo no cristianismo, sendo central na formação da identidade cristã desde seus primórdios.
A Devoção a Jesus: Uma Visão Geral
A devoção a Jesus como Senhor, Messias e figura divina é amplamente atestada nos textos do Novo Testamento e em outros documentos do cristianismo primitivo. Estudos recentes mostram que práticas como oração em nome de Jesus, confissão de sua divindade e crença em sua ressurreição foram características centrais das comunidades cristãs logo após a morte de Jesus. Larry Hurtado argumenta que a devoção a Jesus representou uma inovação significativa no contexto judaico do século I, marcando uma ruptura com as práticas religiosas exclusivistas do judaísmo (HURTADO, 2003, p. 17). Essa inovação se manifesta, por exemplo, na cristologia exaltada presente nos hinos pré-paulinos, como Filipenses 2:6-11, que descreve Jesus em termos divinos.
Evidências Textuais da Devoção Primitiva
Hinos Cristológicos e a Veneração a Jesus
A análise dos hinos cristológicos oferece uma janela crucial para compreender a devoção a Jesus nas primeiras comunidades. Filipenses 2:6-11, considerado por muitos um hino pré-paulino, apresenta Jesus como existindo "em forma de Deus" e recebendo um "nome acima de todo nome". Martin Hengel destaca que essa linguagem de exaltação e obediência universal implica que Jesus foi entendido como participante da identidade divina desde muito cedo (HENGEL, 1976, p. 119). Para Hengel, a estrutura litúrgica desse hino reflete a prática comunitária de adoração, sugerindo que Jesus era venerado em contextos públicos e litúrgicos.
Outro exemplo significativo é Colossenses 1:15-20, que apresenta Jesus como a "imagem do Deus invisível" e "primogênito de toda criação". Hurtado observa que a cristologia elevada desses textos é incompatível com a ideia de que Jesus só teria sido exaltado como figura divina em estágios posteriores do cristianismo (HURTADO, 2003, p. 99).
Cartas de Paulo
As epístolas paulinas fornecem um rico testemunho sobre a devoção a Jesus no cristianismo primitivo. Paulo frequentemente se refere a Jesus como "Senhor" (κύριος), um título carregado de conotações divinas no contexto judaico-greco-romano. Em 1 Coríntios 16:22, Paulo utiliza a expressão aramaica "Marana tha" ("Vem, Senhor"), uma fórmula litúrgica que aponta para a centralidade de Jesus na oração e na expectativa escatológica da comunidade.
Richard Bauckham argumenta que, ao aplicar a linguagem e as funções exclusivas de Deus a Jesus, Paulo efetivamente incluiu Jesus na identidade divina (BAUCKHAM, 2008, p. 42). Essa inclusão reflete não apenas uma devoção a Jesus como mediador, mas como co-participante da divindade, sugerindo um desenvolvimento cristológico muito precoce.
Testemunhos Extracanônicos
Textos como a Didachê e a carta de Plínio, o Jovem, ao imperador Trajano corroboram a ideia de uma devoção precoce a Jesus. A Didachê apresenta instruções sobre o batismo "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"[1], enquanto Plínio descreve os cristãos como cantando hinos a Cristo "como a um deus"[2]. Ambos os exemplos indicam que, já no final do primeiro século, Jesus era objeto de culto e adoração.
Contexto Judaico e Inovação Religiosa
A devoção a Jesus surge no contexto do monoteísmo judaico, o que torna sua natureza ainda mais notável. No judaísmo do Segundo Templo, a adoração era reservada exclusivamente a YHWH, e qualquer desvio era considerado idolatria. No entanto, as primeiras comunidades cristãs, compostas majoritariamente por judeus, passaram a incluir Jesus em suas práticas devocionais, como orações, confissões de fé e celebrações litúrgicas.
Hurtado sugere que essa inovação pode ser explicada pela experiência do encontro transformador com o Cristo ressuscitado, que levou as primeiras comunidades a reinterpretar sua compreensão de Deus (HURTADO, 2003, p. 72). A cristologia primitiva, portanto, não representava uma ruptura com o monoteísmo judaico, mas uma reformulação que integrava Jesus na identidade divina.
O Debate Acadêmico
Céticos e a Datação da Cristologia Elevada
Alguns estudiosos céticos, como Maurice Casey, argumentam que a cristologia elevada foi um desenvolvimento tardio, influenciado pelo contexto gentílico e pelas ideias helenísticas (CASEY, 1991, p. 87). Segundo essa visão, Jesus teria sido inicialmente percebido apenas como um profeta ou mestre carismático, com sua divindade sendo uma construção posterior das comunidades gentílicas.
No entanto, essa perspectiva tem sido amplamente contestada. A evidência dos textos paulinos e dos hinos pré-paulinos aponta para uma cristologia elevada já em estágios muito iniciais. Bauckham critica essa abordagem, argumentando que ela ignora o forte enraizamento judaico das primeiras expressões de devoção a Jesus (BAUCKHAM, 2008, p. 23). Ele observa que o conceito de "exaltação" de Jesus está intimamente ligado ao monoteísmo judaico e não requer influência helenística para ser compreendido.
Testemunhos Históricos e Arqueológicos
Evidências arqueológicas, como as inscrições cristãs primitivas e os grafites encontrados em locais como Roma, reforçam a noção de que Jesus era venerado como figura divina desde cedo. O grafite "Alexamenos adora seu deus", datado do século II, apesar de ser uma caricatura, reflete o entendimento de que os cristãos adoravam Jesus como Deus, um conceito já consolidado no imaginário popular.
Síntese e Relevância Contemporânea
A análise das evidências textuais, litúrgicas e históricas aponta para a conclusão de que a devoção a Jesus como figura divina era uma característica central do cristianismo primitivo. Ao contrário das alegações céticas, a cristologia elevada não foi um desenvolvimento tardio, mas uma resposta inicial das comunidades ao evento da ressurreição e às experiências espirituais associadas a Jesus.
Hurtado e Bauckham oferecem perspectivas complementares que ajudam a entender como essa devoção se desenvolveu no contexto de um monoteísmo judaico rigoroso. Enquanto Hurtado enfatiza a inovação devocional, Bauckham foca na inclusão de Jesus na identidade divina. Juntas, essas abordagens mostram que a veneração a Jesus não era apenas uma questão de prática religiosa, mas estava profundamente ligada à identidade teológica das comunidades cristãs.
Conclusão
Portanto, conforme a presente analise, A devoção a Jesus no cristianismo primitivo desafia as simplificações que tentam reduzir a figura de Jesus a um mero profeta ou mestre moral. As evidências textuais, arqueológicas e históricas indicam que, desde os estágios mais iniciais, Jesus foi reconhecido como uma figura central na fé e na prática das comunidades cristãs. A cristologia elevada, longe de ser uma inovação tardia, estava presente desde o início, moldando a identidade do cristianismo como um movimento religioso único e transformador. Ao recuperar essa compreensão, não apenas esclarecemos o passado, mas também enriquecemos o diálogo teológico e histórico contemporâneo sobre as origens do cristianismo.
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Referências
1. HURTADO, Larry. Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003, p. 17.
2. HENGEL, Martin. The Son of God: The Origin of Christology and the History of Jewish-Hellenistic Religion. London: SCM Press, 1976, p. 119.
3. BAUCKHAM, Richard. Jesus and the God of Israel: God Crucified and Other Studies on the New Testament's Christology of Divine Identity. Grand Rapids: Eerdmans, 2008, p. 42.
4. CASEY, Maurice. From Jewish Prophet to Gentile God: The Origins and Development of New Testament Christology. Cambridge: Cambridge University Press, 1991, p. 87.
Notas
1. DIDAQUÊ. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James; COX, Arthur Cleveland (Ed.). The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus. Grand Rapids: Eerdmans, 1975, p. 125-137.
2. PLÍNIO, o Jovem. Cartas (Epístolas X.96-97). In: BETTENSON, Henry (Ed.). Documents of the Christian Church. Oxford: Oxford University Press, 1963, p. 3-4.
Diogo J. Soares