A História da Salvação é uma abordagem teológica que entende a Bíblia como o relato da ação redentora de Deus ao longo da história humana, culminando na obra de Cristo. Essa perspectiva, amplamente defendida por teólogos e exegetas incluindo o presente autor, articula uma visão unificada das Escrituras, valorizando tanto a historicidade dos eventos bíblicos quanto seu significado transcendente. Em contraste, a interpretação existencialista, popularizada por Rudolf Bultmann, é frequentemente criticada como uma abordagem anacrônica e inadequada, uma vez que desconsidera o caráter essencialmente histórico da Fé Cristã.
A Natureza Histórica e Supra-Histórica da Fé Cristã
A Fé Cristã se distingue por sua base histórica. O cristianismo não é um sistema de ideias abstratas, mas uma religião fundamentada em eventos concretos: a encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Como afirma Cullmann, "a fé cristã não pode ser separada dos eventos históricos que a fundamentam" (CULLMANN, 1965, p. 21). A História da Salvação reconhece que esses eventos não apenas ocorreram em momentos específicos, mas têm um significado eterno, transcendente e supra-histórico.
Ao contrário da interpretação existencialista, que busca reinterpretar os textos bíblicos como alegorias atemporais da experiência humana, a História da Salvação enfatiza a continuidade histórica entre o Antigo e o Novo Testamentos. Leonhard Goppelt argumenta que a tipologia é central para compreender essa continuidade, pois o Antigo Testamento prefigura e encontra seu cumprimento no Novo Testamento (GOPPELT, 1972, p. 89). Essa abordagem confirma que Deus age na história para realizar Seu plano redentor.
A Revelação Bíblica: Alinhamento com a História da Salvação
No Antigo Testamento, a História da Salvação é evidente no relato da promessa de Redenção da humanidade em Gênesis (Genesis 3:15), e da aliança entre Deus e Israel. Desde a Promessa de Redenção a Adão e Eva (O Protoevangelho) a chamada de Abraão até o êxodo, a monarquia davídica e os profetas, a história de Israel é marcada pela ação de Deus em direção à Redenção. Esses eventos não são apenas históricos, mas carregam significados que apontam para o futuro cumprimento em Cristo. George Eldon Ladd destaca que "o Antigo Testamento é inseparável do Novo, pois ambos narram a única História Redentora de Deus" (LADD, 1974, p. 45).
No Novo Testamento, essa história atinge seu clímax na pessoa de Jesus Cristo. O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 15:14, declara: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã a nossa fé." Essa afirmação demonstra que a Fé Cristã está enraizada em um evento histórico real. A ressurreição não é apenas uma experiência existencial, mas uma intervenção divina concreta na História.
As Falhas e Equívocos da Interpretação Existencialista
A abordagem existencialista, como proposta por Rudolf Bultmann, tenta desmitologizar os textos bíblicos, reinterpretando-os como símbolos das condições humanas universais (BULTMANN, 1941, p. 52). Embora essa abordagem tenha contribuído para um maior foco na relevância individual da mensagem cristã, ela falha ao desconsiderar a importância dos eventos históricos reais. Como observa N. T. Wright, "uma fé cristã desvinculada da história não é fé cristã, mas uma filosofia abstrata" (WRIGHT, 1996, p. 37).
Além disso, a interpretação existencialista é anacrônica, pois aplica categorias modernas de pensamento à cosmovisão bíblica antiga. A Escritura não apresenta os eventos redentores como meras ideias, mas como ações divinas reais. Karl Barth criticou essa abordagem, afirmando que "o Deus da Bíblia é um Deus que age, não uma ideia que se contempla" (BARTH, 1956, p. 78).
Conclusão
Portanto, para o presente autor A História da Salvação se alinha de maneira mais coerente com a Revelação Bíblica, pois reconhece o caráter intrinsecamente histórico e supra-histórico da Fé Cristã. Essa abordagem interpreta a Bíblia como o relato de Deus agindo na história para redimir a humanidade, unificando o Antigo e o Novo Testamentos em um único plano redentor. Em contraste, a interpretação existencialista, ao desvalorizar a historicidade dos eventos bíblicos, distorce de maneira anacrônica o cerne da mensagem cristã. A fé cristã é simultaneamente histórica, enraizada em eventos concretos, e supra-histórica, transcendendo o tempo para transformar vidas ao longo dos séculos.
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Referências e Notas
1. CULLMANN, Oscar. Salvation in History. Nova York: Harper & Row, 1965, p. 21.
2. GOPPELT, Leonhard. Typos: The Typological Interpretation of the Old Testament in the New. Grand Rapids: Eerdmans, 1972, p. 89.
3. LADD, George Eldon. A Theology of the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1974, p. 45.
4. BULTMANN, Rudolf. New Testament and Mythology. Londres: SCM Press, 1941, p. 52.
5. WRIGHT, N. T. Jesus and the Victory of God. Minneapolis: Fortress Press, 1996, p. 37.
6. BARTH, Karl. Church Dogmatics III/3. Edimburgo: T&T Clark, 1956, p. 78.
Diogo J. Soares