As Promessas Messiânicas no Antigo Testamento e o seu Clímax Escatológico em Jesus Cristo



A narrativa bíblica apresenta um fio condutor que atravessa os séculos, revelando o propósito eterno de Deus em redimir a humanidade por meio da Pessoa de Jesus Cristo. Essa trajetória inicia-se em Gênesis 3:15, conhecido como o Protoevangelho, que aponta para uma promessa messiânica de cunho escatológico, sendo progressivamente desenvolvida ao longo do Antigo Testamento e culminando na vinda, ministério, morte, ressurreição e ascensão de Cristo. Neste artigo buscaremos analisar como essas promessas messiânicas se desenrolam, enfatizando sua tensão entre o "já e ainda não" do Reino de Deus e a consumação plena na segunda vinda de Cristo.

1. Gênesis 3:15: O Protoevangelho e seu Caráter Escatológico

Gênesis 3:15 estabelece a primeira promessa messiânica, em que Deus declara à serpente: "Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar" (NVI). Esta passagem é amplamente interpretada como o Protoevangelho, a primeira proclamação do evangelho, contendo o embrião da esperança escatológica que seria desenvolvida na história redentora. Geerhardus Vos observa que "a semente da mulher é o prenúncio do Messias, cuja vitória sobre a serpente representa a destruição do poder do pecado e de Satanás"¹.

O texto apresenta um conflito que transcende a história imediata de Adão e Eva, antecipando uma batalha cósmica entre a linhagem messiânica e as forças do mal. Como notam Bruce Waltke e outros, "o caráter escatológico do Protoevangelho é evidente na previsão de uma vitória final, ainda que futura, sobre a serpente"².

2. As Promessas Messiânicas no Antigo Testamento

O Antigo Testamento está repleto de promessas messiânicas que ampliam e detalham a expectativa iniciada em Gênesis 3:15. Textos como Gênesis 12:1-3, 2 Samuel 7:12-16, Isaías 7:14, 9:6-7 e Miquéias 5:2 apontam para a vinda de um descendente de Abraão, da linhagem de Davi, que traria bênção e redenção às nações.

Isaías desempenha um papel central na descrição do Messias como o "Servo Sofredor" (Is 53) e como o Rei justo que trará paz eterna (Is 9:6-7). Como observa John N. Oswalt, "as profecias de Isaías capturam a dualidade do Messias como um Servo que sofre por seu povo e um Rei que reina em justiça, apontando para o cumprimento final em Cristo"³.

Essas promessas possuem uma dimensão ou caráter escatológico ao antecipar o estabelecimento do Reino de Deus, que se manifestaria plenamente em um tempo futuro. De acordo com Graeme Goldsworthy, "o Antigo Testamento revela um padrão de promessa e cumprimento que encontra seu clímax na vinda de Cristo e no Reino que Ele inaugura"⁴.

3. O Cumprimento em Jesus Cristo e a Tensão Escatológica do "Já e Ainda Não"

A encarnação de Jesus Cristo marca o início do cumprimento das promessas messiânicas. Em sua primeira vinda, Ele inaugura o Reino de Deus, conforme proclamado em Marcos 1:15: "O tempo é chegado. O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas-novas!" Jesus realiza a vitória prometida em Gênesis 3:15 ao derrotar o poder de Satanás e do pecado por meio de sua morte e ressurreição (Cl 2:15; Hb 2:14).

No entanto, o Reino de Deus, inaugurado na primeira vinda de Cristo, ainda não foi plenamente consumado. Esta tensão entre o "já" e o "ainda não" é uma característica central da teologia do Novo Testamento. George Eldon Ladd explica que "a tensão do Reino de Deus no Novo Testamento reflete sua presença atual e sua realização futura, quando Cristo retornará para completar o plano redentor"⁵.

4. A Consumação Plena na Segunda Vinda de Cristo

O Novo Testamento aponta para a consumação plena das promessas messiânicas na segunda vinda de Cristo. Em Apocalipse 19:11-21, Jesus é retratado como o Rei vitorioso que derrotará definitivamente as forças do mal. O Protoevangelho encontra seu clímax escatológico neste evento, quando a serpente será derrotada de forma final e irrevogável (Ap 20:10).

A esperança cristã repousa na promessa de novos céus e nova terra, onde a justiça habita (2 Pe 3:13) e onde Deus estará plenamente presente com Seu povo (Ap 21:3-4). Como afirma N.T. Wright, "a escatologia bíblica não é meramente o fim da história, mas o cumprimento de todas as coisas em Cristo, onde o propósito original de Deus é plenamente restaurado"⁶.

Conclusão

A narrativa bíblica, desde o Protoevangelho em Gênesis 3:15 até a visão escatológica em Apocalipse, apresenta a promessa messiânica como o coração do plano redentor de Deus. O cumprimento dessas promessas em Jesus Cristo revela o propósito divino de inaugurar o Reino de Deus em Sua primeira vinda e consumá-lo plenamente em Sua segunda vinda. A tensão entre o "já" e o "ainda não" do Reino de Deus nos lembra que vivemos em um período de esperança ativa e atuação espiritual do Reino, aguardando a plenitude da Redenção.

Assim, o Protoevangelho não apenas introduz a esperança messiânica, mas também aponta para seu propósito escatológico: a restauração completa da criação e a derrota final do mal. Como teólogos e exegetas têm observado, Cristo é tanto o cumprimento quanto o clímax dessas promessas, garantindo que, na história divina, o fim glorioso é certo.

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Notas

¹ Geerhardus Vos, Biblical Theology: Old and New Testaments (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), p. 55.

² Bruce Waltke, An Old Testament Theology (Grand Rapids: Zondervan, 2007), p. 285.

³ John N. Oswalt, The Book of Isaiah (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), p. 230.

⁴ Graeme Goldsworthy, According to Plan: The Unfolding Revelation of God in the Bible (Downers Grove: IVP Academic, 1991), p. 87.

⁵ George Eldon Ladd, The Presence of the Future (Grand Rapids: Eerdmans, 1974), p. 206.

⁶ N.T. Wright, Surprised by Hope (New York: HarperOne, 2008), p. 111.

Diogo J. Soares


DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

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