Unidade e Diversidade no Cristianismo Primitivo: Uma Refutação à Tese de Walter Bauer

 

Unidade e Diversidade no Cristianismo Primitivo: Uma Refutação à Tese de Walter Bauer


O Cristianismo Primitivo tem sido objeto de amplo debate acadêmico, com foco nas dinâmicas de unidade e diversidade teológica entre as comunidades cristãs emergentes. Walter Bauer, renomado filólogo e historiador alemão, em sua obra Orthodoxy and Heresy in Earliest Christianity (1934), argumentou que o cristianismo primitivo era essencialmente fragmentado, com múltiplas doutrinas competindo por hegemonia¹. Ele sugeriu que a chamada "ortodoxia" era apenas uma entre várias interpretações da fé cristã, e que sua eventual supremacia foi resultado de fatores políticos e não de consenso teológico. Este artigo busca examinar criticamente essa tese, destacando evidências bíblicas e históricas de cooperação e comunhão doutrinária entre as primeiras comunidades cristãs, como demonstrado na Epístola aos Gálatas e outros textos do Novo Testamento. Além disso, dialoga com estudiosos reafirmando a unidade doutrinária essencial da Igreja primitiva.

1. Walter Bauer: Vida e Trajetória Acadêmica

Walter Bauer nasceu em 8 de agosto de 1877, na cidade de Königsberg (atual Kaliningrado, Rússia), e faleceu em 17 de novembro de 1960, em Göttingen, Alemanha. Formado em teologia e filologia, Bauer tornou-se professor na Universidade de Marburgo e, posteriormente, na Universidade de Göttingen. Sua principal obra, Orthodoxy and Heresy in Earliest Christianity, desafiou a visão tradicional da história do cristianismo ao propor que, no período inicial, o cristianismo era um movimento plural sem uma forma dominante¹. Para Bauer, o que hoje chamamos de "ortodoxia" emergiu como dominante somente após longas disputas e com o apoio das estruturas de poder romano.

2. A Tese de Bauer

Bauer argumentou que as comunidades cristãs do século II não possuíam uma doutrina central comum. Segundo ele, as chamadas "heresias" eram muitas vezes dominantes em regiões específicas, enquanto a "ortodoxia" era apenas uma entre várias expressões de fé. Essa visão sustenta que os movimentos heterodoxos, como o gnosticismo e o ebionismo, tinham legitimidade equivalente ao cristianismo apostólico. Em sua análise, o consenso doutrinário só foi alcançado através da marginalização de outras correntes e com o apoio político do Império Romano¹.

3. Refutação da Tese de Bauer

3.1. Unidade Doutrinária na Epístola aos Gálatas

Uma evidência fundamental de cooperação e unidade doutrinária na Igreja Primitiva é encontrada em Gálatas 2:1-10. Nesse texto, Paulo relata sua viagem a Jerusalém para discutir o evangelho que pregava entre os gentios. Ele menciona que foi recebido em comunhão pelos líderes da igreja de Jerusalém, como Tiago, Pedro (Cefas) e João, os quais "reconheceram a graça que me foi dada" e estenderam a "mão de comunhão" (Gálatas 2:9).

Esse evento demonstra que, apesar das diferenças culturais e práticas entre os cristãos judeus e gentios, havia concordância doutrinária sobre a centralidade de Cristo como Salvador e o papel da graça na salvação. Além disso, os líderes concordaram em manter a comunhão entre suas comunidades, estabelecendo apenas algumas diretrizes práticas (como a ajuda aos pobres), reafirmando o núcleo teológico compartilhado.

3.2. Cooperação na Prática: As Coletas de Paulo

Outro exemplo significativo de unidade prática e comunhão doutrinária está nas coletas realizadas por Paulo para os cristãos judeus em Jerusalém. Em 1 Coríntios 16:1-4 e Romanos 15:25-27, Paulo descreve sua iniciativa de arrecadar fundos entre as igrejas gentílicas para apoiar os crentes judeus em Jerusalém, evidenciando um esforço concreto de solidariedade e unidade dentro do cristianismo primitivo. Essa prática reflete não apenas uma preocupação social, mas também uma afirmação de que, apesar das diferenças culturais, todos pertenciam ao mesmo corpo de Cristo (1 Coríntios 12:12-13).

3.3. O Concílio de Jerusalém

O Concílio de Jerusalém, descrito em Atos 15, também refuta a tese de Bauer. A questão debatida—se os gentios deveriam seguir a Lei Mosaica—foi resolvida em torno de um consenso teológico: a salvação é pela graça mediante a fé em Jesus Cristo, tanto para judeus quanto para gentios (Atos 15:11). Essa decisão demonstra que, apesar das tensões culturais, havia um compromisso comum com a mensagem central do evangelho.

3.4. Diversidade Prática, Unidade Teológica

James D.G. Dunn, em Unity and Diversity in the New Testament, argumenta que o cristianismo primitivo apresentava uma diversidade significativa em práticas e contextos culturais, mas possuía uma unidade teológica fundamental centrada na pessoa e obra de Cristo². Ele destaca que os principais líderes da Igreja, como Paulo e os apóstolos de Jerusalém, trabalhavam ativamente para preservar essa unidade. Larry Hurtado, em Lord Jesus Christ, complementa essa análise ao demonstrar que a devoção a Jesus como Senhor e Salvador era uma marca universal entre as comunidades cristãs³.

3.5. Rejeição das Heresias

Movimentos como o gnosticismo e o ebionismo, frequentemente citados por Bauer, eram rejeitados pela Igreja apostólica. Paulo na Epístola aos Galatas combate grupos judaizantes e enquanto João, apóstolo em seus escritos combate o gnósticos, Irineu de Lyon, no século 2 em sua obra: Contra Heresias, descreve essas correntes como desvios da tradição apostólica original e reafirma a continuidade da doutrina cristã desde os apóstolos⁵. Essa rejeição sistemática reflete a existência de um núcleo doutrinário amplamente aceito, evidenciando que ortodoxia cristã original provém e se fundamenta na tradição apostólica, e não nos grupos heterodoxos, frequentemente citados por Bauer.

4. Conclusão

Evidências bíblicas e históricas desconstroem a tese de Walter Bauer de que o cristianismo primitivo era fragmentado em múltiplas doutrinas concorrentes. A Epístola aos Gálatas  e as coletas de Paulo demonstram uma cooperação prática e doutrinária entre as comunidades cristãs, enquanto o Concílio de Jerusalém relatado em Atos dos Apóstolos evidencia a capacidade da Igreja Primitiva de resolver tensões em torno de um consenso teológico. Estudos acadêmicos e estudiosos corroboram a visão de que havia uma unidade central na fé cristã, centrada na pessoa de Jesus Cristo desde o princípio.

Portanto, a diversidade no cristianismo primitivo estava relacionada principalmente a diferenças culturais e práticas, enquanto a unidade doutrinária, enraizada e fundamentada na tradição apostólica, permaneceu intacta. A teoria de Bauer, embora influente, é historicamente falha e deve ser revisada à luz dessas evidências históricas.

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Notas 

1. BAUER, Walter. Orthodoxy and Heresy in Earliest Christianity. Philadelphia: Fortress Press, 1934.

2. DUNN, James D.G. Unity and Diversity in the New Testament. London: SCM Press, 1977.

3. HURTADO, Larry. Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.

4. BÍBLIA. Novo Testamento. Gálatas 2:1-10; Atos 15; 1 Coríntios 16:1-4; Romanos 15:25-27.

5. IRINEU DE LYON. Contra Heresias. Livro I.

Diogo J. Soares








DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

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