Os Evangelhos como Biografias Querigmáticas Fundamentadas em Eventos Históricos

Os Evangelhos como Biografias Querigmáticas Fundamentadas em Eventos Históricos


Os quatro Evangelhos canônicos – Mateus, Marcos, Lucas e João – têm sido amplamente debatidos quanto à sua natureza literária e histórica. Nos últimos séculos, a exegese bíblica e a crítica histórica apontaram que essas obras se assemelham a um gênero da Antiguidade conhecido como bios ou bioi, ou seja, biografias, mas com um propósito teológico claro, sendo frequentemente chamados de biografias querigmáticas. A questão central que se coloca, então, é: os Evangelhos são meramente proclamações de fé ou estão fundamentados em eventos históricos concretos? Nesta presente e breve análise buscaremos demonstrar que os Evangelhos são biografias querigmáticas que, embora interpretadas teologicamente, estão alicerçadas em fatos históricos verificáveis.

1. O Gênero Literário dos Evangelhos: Biografia Antiga ou Gênero Único?

O estudo moderno do gênero literário dos Evangelhos se intensificou no século XX. Richard A. Burridge argumenta que os Evangelhos devem ser classificados dentro do gênero de biografia greco-romana antiga, especialmente ao compará-los com obras biográficas da época, como as Vidas Paralelas de Plutarco e a Vida de Apolônio de Tiana de Filóstrato¹. Segundo Burridge, as características dos Evangelhos, como o foco na pessoa de Jesus, a estrutura narrativa que abrange sua Vida, Ensinamentos, Morte e Ressurreição, são típicas do gênero bios.

No entanto, outros estudiosos, como Charles H. Talbert², enfatizam que os Evangelhos não são apenas biografias, pois seu objetivo principal não é simplesmente registrar a vida de Jesus, mas proclamar sua identidade messiânica e soteriológica. Nesse sentido, o caráter querigmático dos Evangelhos os distingue das biografias puramente históricas.

Assim, os Evangelhos combinam aspectos do gênero biográfico com uma forte intenção teológica, uma característica que justifica o termo biografias querigmáticas.

2. Evidências Históricas nos Evangelhos

A historicidade dos Evangelhos é sustentada por diversos fatores, que podem ser analisados com base na metodologia da crítica histórica.

2.1. Testemunhos Oculares e Tradição Oral

Uma das principais evidências da base histórica dos Evangelhos é sua conexão com testemunhos oculares. Richard Bauckham, em Jesus and the Eyewitnesses³, argumenta que os Evangelhos foram escritos a partir de relatos de testemunhas diretas dos eventos. Ele defende que os nomes mencionados nos Evangelhos (como Pedro, Maria Madalena e os irmãos de Jesus) indicam fontes de informação viva dentro das primeiras comunidades cristãs.

A tradição oral desempenhou um papel central na preservação desses relatos antes de sua redação. Segundo James D. G. Dunn, os primeiros seguidores de Jesus praticavam uma "tradição oral controlada", onde os ensinamentos de Jesus eram memorizados e transmitidos com fidelidade⁴.

2.2. Referências a Figuras e Eventos Históricos

Os Evangelhos mencionam figuras históricas como Pôncio Pilatos, Herodes Antipas, Caifás e o Sumo Sacerdote Anás, todos atestados em fontes externas. O historiador judeu Flávio Josefo, por exemplo, faz referência a João Batista, Jesus e Tiago (irmão de Jesus), o que corrobora sua existência histórica⁵. Além disso, Tácito, um historiador romano do século II, menciona a execução de Jesus sob Pilatos, reforçando a credibilidade dos Evangelhos⁶.

A precisão geográfica dos Evangelhos também sugere uma base histórica confiável. O uso de detalhes específicos sobre cidades, sinagogas e costumes judaicos do século I indica um conhecimento autêntico do ambiente em que Jesus viveu.

2.3. Critérios da Crítica Histórica

A pesquisa acadêmica moderna utiliza métodos rigorosos para avaliar a historicidade dos Evangelhos, como:

Critério da Múltipla Atestação: Se um evento ou ensinamento de Jesus aparece em múltiplas fontes independentes (como Marcos, Q, Paulo e João), ele tem mais chances de ser autêntico. A crucificação de Jesus, por exemplo, é amplamente atestada.

Critério do Constrangimento: Se um relato parece embaraçoso para a Igreja primitiva, é improvável que tenha sido inventado. O batismo de Jesus por João Batista é um exemplo, pois poderia sugerir que Jesus necessitava de arrependimento, algo problemático para a cristologia primitiva.

Critério da Descontinuidade: Se um ensinamento de Jesus difere tanto do judaísmo quanto da Igreja primitiva, ele pode ter origem genuinamente nele. Exemplos incluem seu uso do título "Filho do Homem" e sua rejeição de algumas normas rituais judaicas. Esses critérios indicam que os Evangelhos contêm um núcleo histórico real, mesmo que interpretado teologicamente.

3. O Caráter Querigmático dos Evangelhos

Os Evangelhos não se limitam a relatar eventos históricos; eles os interpretam à luz da fé cristã. A teologia subjacente é evidente na estrutura narrativa, na seleção de episódios e na forma como os autores enfatizam aspectos messiânicos e soteriológicos. O evangelista João, por exemplo, escreve explicitamente que seu Evangelho foi composto "para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20,31). Esse propósito querigmático é compartilhado pelos demais Evangelhos, ainda que cada um enfatize aspectos diferentes da identidade de Jesus.

Conclusão

Os Evangelhos são biografias querigmáticas fundamentadas em eventos históricos. Embora não sejam biografias no sentido moderno, seguem o modelo do bios greco-romano ao apresentar a vida e os feitos de Jesus. No entanto, sua ênfase teológica e evangelística os diferencia de biografias meramente históricas.

A crítica histórica confirma que os Evangelhos se baseiam em eventos reais, sustentados por testemunhos oculares, referências externas e critérios historiográficos rigorosos. Ao mesmo tempo, são narrativas moldadas pela fé e pelo propósito de proclamar Jesus como o Messias e Filho de Deus.

Portanto, reconhecer os Evangelhos como biografias querigmáticas nos permite compreender sua natureza híbrida: documentos históricos e teológicos que, juntos, desempenham um papel fundamental na transmissão da fé cristã e na reconstrução do Jesus histórico.

___________________________

Notas

1. Burridge, Richard A. What Are the Gospels? A Comparison with Greco-Roman Biography. Cambridge University Press, 2004.

2. Talbert, Charles H. What Is a Gospel? The Genre of the Canonical Gospels. Fortress Press, 1977.

3. Bauckham, Richard. Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony. Eerdmans, 2006.

4. Dunn, James D. G. Jesus Remembered. Eerdmans, 2003.

5. Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas. Livro 18, capítulos 3-5.

6. Tácito. Anais. Livro 15, capítulo 44.

Diogo J. Soares




DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem