A datação dos Evangelhos Sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas — constitui um dos temas mais debatidos no campo dos estudos neotestamentários. A posição tradicional crítica, influenciada por correntes pós-iluministas, geralmente os situa após o ano 70 d.C., principalmente em função da destruição do Templo de Jerusalém por Tito. No entanto, um número crescente de estudiosos e teólogos têm desafiado essa hipótese, argumentando em favor de uma composição anterior a essa data. Neste breve artigo analisaremos criticamente os principais argumentos históricos, literários e teológicos que sustentam a datação precoce dos Evangelhos Sinóticos, dialogando com especialistas relevantes e apresentando implicações para a historiografia do Novo Testamento.
1. O Argumento do Silêncio sobre a Destruição do Templo
Talvez o argumento mais direto em favor de uma datação anterior a 70 d.C. seja o silêncio dos evangelistas quanto à destruição do Templo de Jerusalém, especialmente nos textos que registram a profecia de Jesus sobre a destruição do Templo (Mt 24; Mc 13; Lc 21). Nenhum dos evangelhos trata o evento como passado ou como cumprimento literal da profecia, o que seria de se esperar se os textos tivessem sido escritos posteriormente. Como aponta John A.T. Robinson, "não há qualquer menção explícita da destruição como um fato consumado, mesmo quando tal menção fortaleceria grandemente os argumentos teológicos dos evangelistas"¹.
Craig Blomberg, ao analisar a precisão e o estilo das profecias escatológicas, observa que “os evangelhos refletem uma expectativa ainda futura da destruição, em vez de uma descrição retrospectiva”, o que enfraquece a tese de uma datação pós-70². Isso se torna ainda mais relevante se considerarmos que Lucas, por exemplo, teria tido a oportunidade de recontextualizar o discurso de Jesus se estivesse escrevendo após a catástrofe de Jerusalém.
2. A Relação com Atos dos Apóstolos e a Cronologia Paulina
Outro ponto crucial reside na relação cronológica entre o Evangelho de Lucas e o livro de Atos dos Apóstolos. Ambos os livros são claramente duas partes de uma mesma obra, dirigidas a Teófilo e escritas pelo mesmo autor. Notavelmente, o livro de Atos termina abruptamente com Paulo ainda vivo e em prisão domiciliar em Roma, sem qualquer menção ao seu julgamento ou execução, eventos que, segundo a tradição, ocorreram na década de 60.
Como argumenta F.F. Bruce, “se Atos foi escrito antes da morte de Paulo, então o Evangelho de Lucas deve ter sido escrito ainda antes”³. Este raciocínio sugere uma data para Lucas no final dos anos 50 e princípios dos anos 60 d.C, e, segundo a hipótese da prioridade de Marcos, (presente autor discorda da prioridade marcana) o Evangelho de Marcos deve ter sido escrito ainda antes disso. Nesse sentido, Eta Linnemann também reforça a ideia de uma origem pré-70, destacando a ausência de qualquer indício de destruição do Templo em Atos como uma lacuna que clama por explicação, caso o texto fosse posterior a esse evento⁴.
3. Marcos e o Testemunho de Papias
A tradição patrística fornece também pistas sobre a datação dos Evangelhos. Papias de Hierápolis (c. 60–130 d.C.), citado por Eusébio de Cesareia, refere-se a Marcos como “intérprete de Pedro”, que escreveu seu evangelho com base nas memórias do apóstolo. Essa ligação direta com Pedro sugere que Marcos escreveu seu evangelho antes da morte do apóstolo, tradicionalmente situada entre 64 e 68 d.C.
William Lane Craig nota que "a confiabilidade da tradição de Papias, embora contestada, se harmoniza com outras fontes antigas e sugere que Marcos escreveu sob o impacto imediato das pregações petrinas"⁵. Além disso, a ausência de temas desenvolvidos em outras comunidades cristãs posteriores (como as questões judaico-gentílicas debatidas em Atos 15) reforça o caráter primitivo de Marcos.
4. Mateus: Judaísmo, Templo e Urgência Escatológica
O Evangelho de Mateus apresenta características marcadamente judaicas: profundo conhecimento da Lei, uso intensivo do Antigo Testamento, e a ausência de temas paulinos. Estudiosos como R.T. France argumentam que “Mateus se dirige a uma comunidade ainda fortemente inserida no judaísmo do Segundo Templo, o que se torna improvável após a destruição deste”⁶.
A urgência escatológica no discurso de Mateus também sugere uma comunidade que ainda aguardava intervenções divinas em um contexto onde o Templo estava presente. O próprio conteúdo do Sermão da Montanha, e o foco na prática da justiça maior que a dos fariseus (Mt 5:20), reforça uma preocupação com uma ortodoxia interna do judaísmo, e não uma resposta a uma realidade pós-templo.
5. Conclusões e Implicações
Portanto as evidências analisadas indicam fortemente que os Evangelhos Sinóticos foram compostos antes da destruição do Templo em 70 d.C., com Marcos possivelmente escrito no início dos anos 60, seguido por Mateus e Lucas. Essa datação tem profundas implicações para a confiabilidade histórica dos Evangelhos, uma vez que os coloca em proximidade temporal com os eventos narrados, aumentando a possibilidade de testemunho ocular e controle comunitário da tradição oral.
A resistência à datação precoce, muitas vezes, se deve a pressupostos filosóficos ou teológicos quanto à possibilidade de predição profética autêntica — uma crítica já feita por Robinson, que desafia os estudiosos a “datar os textos com base no conteúdo e nas evidências internas, e não em pressupostos filosóficos sobre o que Jesus ‘poderia’ ter dito”¹.
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Notas e Referências
1. ROBINSON, John A.T. Redating the New Testament. Londres: SCM Press, 1976. p. 13-14.
2. BLOMBERG, Craig L. The Historical Reliability of the Gospels. Downers Grove: IVP Academic, 2007. p. 68-70.
3. BRUCE, F. F. The New Testament Documents: Are They Reliable? Grand Rapids: Eerdmans, 2003. p. 89-91.
4. LINNEMANN, Eta. Is There a Synoptic Problem? Rethinking the Literary Dependence of the First Three Gospels. Grand Rapids: Baker Books, 1992. p. 58-60.
5. CRAIG, William Lane. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. Wheaton: Crossway Books, 2008. p. 191-193.
6. FRANCE, R. T. Matthew: Evangelist and Teacher. Exeter: Paternoster Press, 1989. p. 35-38.