A doutrina da depravação humana e sua relação com a imagem de Deus (Imago Dei) tem sido um dos pilares da teologia cristã desde os primórdios da Igreja. O apóstolo Paulo, especialmente em suas cartas aos Romanos e aos Coríntios, enfatiza a condição de corrupção da humanidade devido ao pecado de Adão. Em Romanos 5:12-19, ele ensina que "por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram". Em 1 Coríntios 15:21-22, Paulo reforça essa doutrina ao afirmar que "visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo"¹.
Os Pais da Igreja foram os primeiros a interpretar essas passagens, desenvolvendo diferentes concepções sobre a extensão da corrupção humana e a permanência da Imago Dei. A patrística não apresentou um consenso absoluto sobre esses temas, mas forneceu um rico arcabouço teológico que influenciaria tanto a teologia católica medieval quanto a tradição reformada. Neste breve estudo examinaremos as concepções patrísticas sobre a depravação humana e a Imago Dei, abordando fontes primárias e dialogando com autores modernos.
1. A Depravação Humana na Teologia Paulina
O fundamento bíblico para a doutrina da depravação humana está firmemente estabelecido nos escritos de Paulo. Em 1 Coríntios 15:21-22, ele contrasta os efeitos da queda de Adão com a obra redentora de Cristo, afirmando que "assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo"². Essa passagem, juntamente com Romanos 5:12-19, sustenta a ideia de que o pecado e suas consequências se espalharam universalmente pela humanidade.
Outro texto fundamental para a doutrina da depravação é Efésios 2:1-3, onde Paulo descreve os seres humanos como "mortos nos delitos e pecados" e "filhos da ira por natureza". Essa expressão sugere uma corrupção universal da natureza humana, que se tornaria um ponto de debate entre os Pais da Igreja. Segundo Alister McGrath, a interpretação patrística inicial dessas passagens tendia a enfatizar mais a separação de Deus e a necessidade de redenção do que uma corrupção total e absoluta da natureza humana³.
2. A Depravação Humana nos Pais da Igreja
A patrística primitiva não desenvolveu um conceito uniforme sobre a extensão da corrupção do homem após o pecado de Adão. No entanto, a maioria dos Pais reconhecia que a humanidade herdou as consequências do pecado original, embora houvesse divergências sobre a possibilidade de buscar a Deus sem uma graça especial.
2.1 Justino Mártir (100-165 d.C.)
Justino, um dos primeiros apologistas cristãos, reconhecia que o pecado de Adão afetou toda a humanidade, mas enfatizava a responsabilidade moral do homem. Em seu Diálogo com Trifão, ele argumenta que "o homem é livre para escolher entre o bem e o mal"⁴, sugerindo que a queda não eliminou completamente essa liberdade. J.N.D. Kelly observa que a teologia de Justino refletia uma forte ênfase na escolha humana, afastando-se de uma visão determinista da depravação⁵.
2.2 Irineu de Lyon (130-202 d.C.)
Irineu, em sua obra Contra as Heresias, defende que Adão trouxe corrupção e separação de Deus à humanidade, mas que Cristo, como o "novo Adão", restauraria todas as coisas⁶. Ele escreve que "assim como por meio de um homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um, muitos serão justificados"⁷, ecoando a teologia paulina de Romanos 5:19. Jaroslav Pelikan aponta que Irineu via a corrupção do homem como uma condição herdada, mas não como uma depravação total incapacitante⁸.
2.3 Tertuliano (160-220 d.C.)
Tertuliano, em Sobre a Alma, introduz a ideia de que o pecado original é transmitido hereditariamente, manchando a alma de cada ser humano⁹. Ele afirma que "todo ser humano nasce com a culpa de Adão", antecipando um conceito que mais tarde seria refinado por Agostinho. Ken M. Wilson argumenta que a visão de Tertuliano representava um passo intermediário entre a crença mais otimista dos Pais gregos e a doutrina da depravação total que seria posteriormente consolidada no Ocidente¹⁰.
2.4 Agostinho de Hipona (354-430 d.C.)
O conceito mais desenvolvido da depravação total surge com Agostinho. Em A Cidade de Deus, ele ensina que "nenhum homem pode fazer o bem sem a graça de Deus"¹¹. Sua disputa com Pelágio foi central para a formulação dessa doutrina. Enquanto Pelágio argumentava que o homem era capaz de buscar Deus sem uma graça irresistível, Agostinho defendia que a queda tornou os seres humanos completamente incapazes de se voltarem para Deus sem a intervenção divina¹².
Agostinho se baseia fortemente em Romanos 5:12, argumentando que "todos pecaram em Adão" não apenas por imitação, mas por herança. Alister McGrath observa que essa doutrina agostiniana da depravação total foi posteriormente incorporada na teologia reformada, especialmente por João Calvino¹³.
3. A Imago Dei nos Pais da Igreja
A questão da imagem de Deus no homem também foi debatida entre os Pais da Igreja. A dúvida central era: o homem perdeu completamente a Imago Dei após a queda, ou ela permaneceu de alguma forma?
3.1 Irineu de Lyon: Imagem vs. Semelhança
Irineu faz uma distinção entre imagem e semelhança. Ele argumenta que o homem manteve a imagem de Deus (isto é, racionalidade e moralidade), mas perdeu a semelhança (santidade e comunhão com Deus)¹⁴.
3.2 João Crisóstomo (347-407 d.C.)
Crisóstomo, em suas homilias sobre Gênesis, defende que "a imagem de Deus permanece no homem, mas de forma enfraquecida"¹⁵.
3.3 Agostinho de Hipona
Agostinho ensina que a Imago Dei foi "gravemente ferida, mas não destruída"¹⁶.
4. Conclusão
Portanto a análise patrística revela que a maioria dos Pais reconhecia a corrupção humana, mas divergiam quanto à sua extensão. Antes de Agostinho, predominava a ideia de que o homem estava corrompido, mas ainda capaz de buscar a Deus. Com Agostinho, a visão da depravação total se consolidou. Quanto à Imago Dei, os Pais concordavam que ela não foi completamente destruída, mas que foi corrompida e obscurecida pelo pecado. A patrística, portanto, está amplamente alinhada com a Escritura, mas sua interpretação evoluiu ao longo dos séculos.
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Notas
¹ 1 Coríntios 15:21-22.
² Ibid.
³ Alister McGrath, Christian Theology: An Introduction, 5ª ed. (Oxford: Wiley-Blackwell, 2011), p. 345.
⁴ Justino Mártir, Diálogo com Trifão, cap. 43.
⁵ J.N.D. Kelly, Early Christian Doctrines, 5ª ed. (New York: Harper & Row, 1978), p. 160.
⁶ Irineu de Lyon, Contra as Heresias, Livro 3, Cap. 23, 7.
⁷ Ibid.
⁸ Jaroslav Pelikan, The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine, vol. 1 (Chicago: University of Chicago Press, 1971), p. 87.
⁹ Tertuliano, Sobre a Alma, cap. 16 e 41.
¹⁰ Ken M. Wilson, The Foundation of Augustinian-Calvinism (Lanham: Lexington Books, 2019), p. 112.
¹¹ Agostinho, A Cidade de Deus, Livro 14, Cap. 1.
¹² Agostinho, Contra Pelágio, Livro 1.
¹³ Alister McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, 2ª ed. (Oxford: Wiley-Blackwell, 2012), p. 215.
¹⁴ Irineu, Contra as Heresias, Livro 5, Cap. 6, 1.
¹⁵ João Crisóstomo, Homilias sobre Gênesis, Homilia 8.
¹⁶ Agostinho, Sobre a Trindade, Livro 14, Cap. 6.