A Dimensão Soteriológica e Escatológica das Crenças Farisaicas: Uma Análise Acadêmica e Histórica



A Dimensão Soteriológica e Escatológica das Crenças Farisaicas: Uma Análise Acadêmica e Histórica


Os fariseus, um dos grupos religiosos mais influentes do judaísmo do Segundo Templo (c. 516 a.C.–70 d.C.), desenvolveram uma teologia que influenciou significativamente o judaísmo rabínico posterior. Seu sistema de crenças, baseado na interpretação rigorosa da Torá e na tradição oral, gerou amplos debates sobre sua ênfase teológica. Neste estudo investigaremos se o pensamento farisaico era predominantemente soteriológico—isto é, focado na salvação individual e na relação com Deus—ou escatológico, concentrando-se no destino último de Israel e na era messiânica. Para isso, recorreremos a fontes primárias anteriores a Cristo e às análises de outros estudiosos.

O Contexto Histórico dos Fariseus

Os fariseus emergiram como um grupo distinto no período helenístico, especialmente após a crise macabeia (c. 167-160 a.C.), em oposição a outros segmentos do judaísmo, como os saduceus e os essênios. Flávio Josefo descreve os fariseus como mestres da Lei e como um grupo de grande influência popular¹. Seu pensamento teológico destacava a crença na ressurreição dos mortos, na existência de anjos e espíritos, na justiça divina e na vida após a morte².

A Mishná, que preserva tradições orais da época, composta no século 2 d.C, demonstra a ênfase farisaica na observância da Lei e na pureza ritual como meios de santificação e relação com Deus³. John P. Meier argumenta que essa centralidade da Torá e das tradições orais foi um dos fatores que os distinguiu dos saduceus, que rejeitavam a tradição oral e aceitavam apenas a Torá escrita⁴. Assim, os fariseus desenvolveram um pensamento que abrangia tanto aspectos soteriológicos quanto escatológicos.

A Soteriologia Farisaica: Obras da Lei e Justiça Pessoal

A soteriologia, entendida como o estudo da salvação e da relação do ser humano com o divino, é um elemento essencial na teologia farisaica. O historiador E. P. Sanders argumenta que o judaísmo farisaico seguia um modelo de "nomismo pactual", segundo o qual a salvação não era conquistada pelas obras da Lei, mas sim uma resposta ao pacto estabelecido por Deus⁵.

Flávio Josefo menciona que os fariseus acreditavam em uma combinação entre destino e livre-arbítrio: as pessoas tinham liberdade para agir, mas seriam julgadas por Deus⁶. Esse conceito reforça a ideia de que a obediência à Lei era vista não como um meio para obter a salvação, mas como uma resposta à aliança divina.

Geza Vermes, em seus estudos sobre o judaísmo do Segundo Templo, enfatiza que a espiritualidade farisaica não era legalista no sentido estrito, mas sim um caminho de santificação comunitária, no qual a observância da Lei funcionava como uma identidade distintiva⁷. Essa visão também é reforçada pelos Salmos de Salomão, que destacam a justiça pessoal e a piedade como aspectos fundamentais da relação com Deus⁸.

N. T. Wright argumenta que os fariseus viam sua fidelidade à Torá como uma forma de manter a aliança com Deus e garantir a futura restauração de Israel⁹. Assim, seu pensamento soteriológico estava intrinsecamente ligado a uma esperança nacional e não apenas individual.

A Escatologia Farisaica: Ressurreição e a Era Messiânica

A crença na ressurreição dos mortos e na recompensa futura é um dos aspectos mais distintivos do pensamento farisaico. O Livro de Daniel (século VI a.C) já apresenta essa doutrina, afirmando que “muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna e outros para a vergonha e desprezo eterno”¹⁰.

Josefo confirma que os fariseus ensinavam a ressurreição dos mortos e a punição dos ímpios¹¹, em contraste com os saduceus, que rejeitavam essa crença. O Livro dos Jubileus também reforça uma visão escatológica dualista, prevendo a futura restauração dos justos e a condenação dos ímpios¹².

Martin Hengel argumenta que a crença farisaica na ressurreição estava conectada com a expectativa messiânica e a restauração de Israel¹³. Essa visão escatológica aparece em textos como o Testamento de Moisés, que descreve um tempo em que Deus intervirá na história para julgar os opressores e restaurar seu povo¹⁴.

A esperança messiânica também é evidente nos Salmos de Salomão, que preveem um rei davídico que estabelecerá a justiça e livrará Israel de seus inimigos¹⁵. N. T. Wright observa que essa escatologia não era apenas apocalíptica, mas também política, refletindo a esperança de uma libertação nacional e da instauração do Reino de Deus¹⁶.

O Equilíbrio entre Soteriologia e Escatologia

A análise das fontes sugere que os fariseus integravam aspectos soteriológicos e escatológicos em sua teologia. A observância da Lei funcionava como uma resposta ao chamado divino e como um meio de preparar-se para a era messiânica. Jacob Neusner argumenta que a teologia farisaica unia esses dois aspectos ao enxergar a prática da Torá como um prenúncio da restauração futura¹⁷.

Geza Vermes e John P. Meier destacam que os fariseus não viam a escatologia como um evento separado da prática religiosa cotidiana, mas como parte de um processo contínuo que culminaria na redenção de Israel¹⁸.

Considerações Finais

As crenças farisaicas não podem ser classificadas exclusivamente como soteriológicas ou escatológicas. A fidelidade à Torá era tanto um meio de santificação pessoal quanto um ato preparatório para a intervenção futura de Deus na história. Como argumenta N. T. Wright, a esperança messiânica dos fariseus não era uma simples expectativa apocalíptica, mas uma visão ativa da restauração de Israel, interligando escatologia e vida prática¹⁹.

Assim, o pensamento farisaico se apresenta como uma síntese dessas duas dimensões, na qual a obediência à Lei e a esperança escatológica se entrelaçam em um sistema teológico coerente.

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Notas e Referências 

1. Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, XIII.10.5.

2. Ibidem, XVIII.1.3.

3. Mishná, Avot 1:1.

4. John P. Meier, A Marginal Jew, 1991, p. 270.

5. E. P. Sanders, Paul and Palestinian Judaism, 1977, p. 75.

6. Flávio Josefo, Guerras Judaicas, II.8.14.

7. Geza Vermes, The Religion of Jesus the Jew, 1993, p. 47.

8. Salmos de Salomão 3:3-8.

9. N. T. Wright, The New Testament and the People of God, 1992, p. 281.

10. Livro de Daniel 12:2.

11. Flávio Josefo, Guerras Judaicas, II.8.14.

12. Livro dos Jubileus 23:31.

13. Martin Hengel, Judaism and Hellenism, 1974, p. 201.

14. Testamento de Moisés, 10:1-10.

15. Salmos de Salomão 17:21-25.

16. N. T. Wright, Jesus and the Victory of God, 1996, p. 325.

17. Jacob Neusner, The Pharisees, 1987, p. 112.

18. Geza Vermes, The Changing Faces of Jesus, 2000, p. 89.

19. N. T. Wright, The Resurrection of the Son of God, 2003, p. 417.




DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento pelo Seminário Bíblico de São Paulo/SP (FETSB); Mestre (M.A.) em Teologia e Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada e graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG). É teólogo, biblista, historiador e apologista cristão.

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