Durante o século I d.C., a Ásia Menor — região que corresponde em grande parte à atual Turquia — era um importante eixo de ligação entre o Oriente helenístico e o mundo romano. Essa região, profundamente influenciada pela cultura grega desde as conquistas de Alexandre, tornou-se um espaço crucial para a expansão do cristianismo primitivo. Entre meados e o final do século I, a atuação do Apóstolo Paulo nela não ocorreu em um vácuo histórico, mas num contexto social, político e religioso altamente estruturado. Neste breve artigo analisaremos, com base em fontes primárias e descobertas arqueológicas, o ambiente da Ásia Menor no tempo de Paulo, considerando seus aspectos políticos, econômicos e religiosos.
1. Organização Política: A Estrutura Imperial e as Cidades-Estado Gregas
A partir de 129 a.C., com a criação da província romana da Ásia, a penetração romana na região foi se consolidando, chegando ao pleno controle no século I d.C. Durante o período de atuação de Paulo (ca. 40–65 d.C.), imperadores como Cláudio e Nero mantinham uma administração que respeitava, em parte, as estruturas locais das cidades gregas, mas com rígido controle romano sobre segurança e arrecadação fiscal.
Inscrições descobertas em Mileto e Éfeso revelam que as cidades possuíam conselhos locais (boule) e magistraturas helenísticas, ainda que os governadores provinciais (proconsules) nomeados por Roma exercessem autoridade final¹. No livro de Atos dos Apóstolos, há menção a proconsules como Sérgio Paulo em Chipre (At 13:7), o que corrobora a administração romana típica das províncias senatoriais, como a Ásia.
Fergus Millar observa que o império romano exercia um “governo sem burocracia”, onde a administração dependia fortemente das elites locais, que por sua vez buscavam legitimar seu poder por meio da fidelidade ao imperador². O culto imperial, refletido em inscrições e templos dedicados a Augusto e Cláudio em cidades como Éfeso, tornou-se uma ferramenta ideológica de coesão e dominação.
2. Economia e Estrutura Urbana: Comércio, Mobilidade e Produção
Do ponto de vista econômico, a Ásia Menor combinava uma base agrícola sólida com importantes centros urbanos voltados ao comércio e à produção artesanal. Cidades como Éfeso, Pérgamo, Colossos e Laodiceia eram ricas e bem conectadas por estradas romanas, como a Via Sebaste, construída sob Augusto. Tais vias facilitaram não apenas o comércio, mas também a mobilidade de pregadores e missionários como Paulo.
Ruínas escavadas em Laodiceia e Sardes revelam mercados, oficinas e aquedutos, indicando alto grau de urbanização³. As cartas paulinas mencionam trabalhadores manuais (como o curtidor Simão, em At 10:6), comerciantes (Lídia, vendedora de púrpura, At 16:14) e viajantes frequentes, demonstrando a inserção do cristianismo nesse mundo urbano conectado.
Richard Alston argumenta que as cidades funcionavam como centros redistributivos, e as elites usufruíam de rendas fundiárias provenientes das zonas rurais, o que gerava uma interdependência entre campo e cidade⁴. Paulo, por vezes, se refere à coleta de ofertas entre igrejas (2 Cor 8–9), o que sugere uma rede econômica translocal cristã incipiente.
3. Paisagem Religiosa: Pluralismo Pagão, Cultos Locais e Cristianismo Primitivo
A religiosidade na Ásia Menor era intensamente pagã e sincrética. A arqueologia revela templos dedicados a deuses locais, como Ártemis de Éfeso (cujo templo era uma das sete maravilhas do mundo antigo), Cibele em Pesinunte, e Sabázios na Frígia. O culto imperial também ganhava força: moedas da época retratam imperadores com títulos como “divus” e “soter” (salvador), usurpando léxicos religiosos que mais tarde seriam reivindicados pelo cristianismo.
Atos 19 descreve com detalhe um tumulto em Éfeso provocado pela pregação de Paulo, que teria afetado os lucros dos artífices do templo de Ártemis — episódio que coincide com inscrições arqueológicas sobre a importância econômica do culto a Ártemis e sua guilda de ourives⁵.
As comunidades judaicas também estavam presentes em cidades como Sardes e Éfeso, como comprovam inscrições e restos de sinagogas. Paulo frequentemente começava sua pregação nas sinagogas (At 13:14; At 14:1), antes de se voltar aos gentios.
Paula Fredriksen destaca que Paulo não via o cristianismo como uma nova religião, mas como a consumação da esperança judaica para os gentios⁶. No entanto, ao entrar em diálogo com uma cultura greco-romana plural, o evangelho paulino se transformava em uma alternativa radical às hierarquias sociais e religiosas vigentes.
4. Evidências Arqueológicas Complementares
A arqueologia tem contribuído enormemente para compreender o ambiente do cristianismo primitivo na Ásia Menor:
A inscrição de Res Gestae Divi Augusti, encontrada em Ancyra (moderna Ancara), documenta a ideologia imperial que permeava a província da Galácia, onde Paulo realizou viagens (Gl 1:2).
Em Éfeso, foram descobertas inscrições honoríficas que mencionam cargos de sacerdotes do culto imperial e de Ártemis, mostrando a ligação entre religião e status cívico⁷.
Em Afrodisias, inscrições bilíngues (grego-latim) revelam o multiculturalismo e o ambiente propício ao florescimento de ideias novas, como o cristianismo.
Essas descobertas reforçam a leitura de John Barclay de que a teologia da graça paulina era uma crítica ao sistema meritocrático e hierárquico das cidades romanas⁸.
Considerações Finais
A Ásia Menor na época de Paulo era uma região vibrante, diversa e intensamente conectada ao Império Romano. A estabilidade política, a rede urbana e comercial, o pluralismo pagão religioso e as estruturas sociais hierárquicas formavam um cenário complexo, no qual a mensagem cristã encontrou tanto oposição quanto terreno fértil. A atuação paulina, iluminada por textos antigos e evidências arqueológicas, revela-se como um fenômeno histórico que dialogava criticamente com seu contexto, oferecendo novos sentidos de pertencimento, ética e identidade. A força do cristianismo primitivo, especialmente nas cidades da Ásia Menor, não se deve apenas ao conteúdo teológico da pregação, mas também à sua capacidade de responder — em linguagem acessível — às inquietações espirituais e sociais de um mundo em transformação.
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Notas e Referências
1. KEENER, Craig S. Acts: An Exegetical Commentary. Vol. 3. Grand Rapids: Baker Academic, 2014. p. 2540 -2545.
2. MILLAR, Fergus. The Roman Near East: 31 BC–AD 337. Cambridge: Harvard University Press, 1993. p. 97-101.
3. FOSS, Clive. The City and the Countryside in Byzantine Asia Minor. Dumbarton Oaks Papers, Washington D.C., vol. 45, p. 213-232, 1991.
4. ALSTON, Richard. Aspects of Roman History: 31 BC–AD 117. London: Routledge, 1996. p. 135-142.
5. MITTEN, David G. The Ephesian Artemis as a Fertility Deity. American Journal of Archaeology, Boston, vol. 60, no. 2, p. 177-182, 1956.
6. FREDRIKSEN, Paula. Paul: The Pagans’ Apostle. New Haven: Yale University Press, 2017. p. 43-50.
7. ROGERS, Guy M. The Sacred Identity of Ephesos: Foundation Myths of a Roman City. London: Routledge, 1991. p. 88-94.
8. BARCLAY, John M. G. Paul and the Gift. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 2015. p. 187-195.