O conceito de Reino de Deus ocupa um lugar central tanto na literatura pseudoepígrafa judaica quanto nos Evangelhos sinóticos do Novo Testamento. Contudo, apesar das aparentes semelhanças conceituais — como a esperança escatológica e o anseio por justiça divina — há diferenças fundamentais em suas abordagens. Neste artigo iremos analisar teologicamente o conceito de Reino de Deus na literatura pseudoepígrafa judaica, explorando suas convergências e divergências com os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. O estudo será embasado em leituras críticas de textos apocalípticos como 1 Enoque, 4 Esdras e Salmos de Salomão, bem como em interpretações teológicas oferecidas por estudiosos contemporâneos.
1. O Reino de Deus na Literatura Pseudoepígrafa Judaica
A literatura pseudoepígrafa compõe um conjunto de textos judaicos escritos majoritariamente entre o século III a.C. e o século II d.C., que foram atribuídos a figuras veneradas do passado (como Enoque, Esdras, Baruc, entre outros), mas cuja autoria verdadeira é desconhecida ou deliberadamente atribuída para dar autoridade ao conteúdo. O termo "pseudoepígrafo" deriva do grego pseudos (falso) e epigraphein (escrever sobre), indicando que esses escritos reivindicam uma autoria que não lhes pertence de fato¹.
Estes textos não fazem parte do cânon hebraico nem, em sua maioria, do cânon cristão, embora tenham supostamente exercido grande influência na formação do pensamento religioso judaico e cristão do Segundo Templo. Seu propósito teológico era interpretar a história de Israel à luz de uma visão escatológica, promover a fidelidade à Lei em tempos de crise e oferecer esperança diante da opressão. Serviam como resistência ideológica contra as potências estrangeiras, especialmente o helenismo e o império romano.
Os gêneros literários presentes na literatura pseudoepígrafa são diversos: apocalipse, testamento, salmo, parábola, revelações visuais e auditivas, entre outros. Os apocalipses — como 1 Enoque e 4 Esdras — predominam, caracterizados pela revelação de mistérios divinos por meio de visões simbólicas e linguagem figurada. Esses textos frequentemente apresentam um dualismo temporal (presente mau versus futuro glorioso) e cósmico (Deus e seus anjos contra as forças do mal), projetando o Reino de Deus como uma realidade futura e transcendente².
Em 1 Enoque, especialmente nas seções apocalípticas como o Livro das Parábolas (1 Enoque 37–71), o Reino de Deus é associado à figura do “Filho do Homem”, que atua como agente do juízo final e restaurador da ordem cósmica³. Aqui, o Reino é transcendental e futuro, instaurado por Deus no tempo determinado, em oposição à dominação dos ímpios e dos poderes estrangeiros.
Em 4 Esdras (ou 2 Esdras), escrito após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C., o Reino é descrito como um tempo de renovação da criação sob a liderança messiânica. A figura do Messias é destacada como governante de um reino terrestre e justo, que substituirá os impérios opressores da história humana⁴. Esse texto enfatiza o sofrimento presente como prelúdio da glória futura, sendo o Reino de Deus uma esperança futura e concreta.
Os Salmos de Salomão, particularmente o salmo 17, apresentam um ideal de Reino baseado na pureza religiosa e na restauração davídica. O Messias é visto como o agente divino que purificará Jerusalém e reunirá o povo em fidelidade à Torá⁵. O Reino, aqui, assume caráter político-teocrático, destacando a ação de Deus em promover a justiça por meio de um rei ungido.
Apesar das diferenças entre os textos, há uma teologia comum que aponta para um Reino escatológico, vindouro, instaurado por intervenção divina, frequentemente por meio de um agente messiânico. Essa literatura revela a profunda tensão escatológica vivida pelo judaísmo do Segundo Templo, e fornece o pano de fundo ideológico para a teologia do Reino que será retomada nos Evangelhos.
2. O Reino de Deus nos Evangelhos Sinóticos
Nos Evangelhos sinóticos, especialmente em Marcos — considerado o mais antigo — o Reino de Deus é o tema central da pregação do Senhor Jesus: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15). A novidade não está no conceito de Reino, mas na sua imediaticidade e na Pessoa de Jesus como revelação desse Reino⁶.
Mateus associa o Reino com a ética do discipulado, sendo o Sermão do Monte (Mt 5–7) sua principal exposição. O Reino é presente e futuro, manifesto na comunidade dos fiéis, mas também aguardado em plenitude escatológica. Lucas, por sua vez, destaca o Reino como realidade espiritual, social e libertadora: “o Reino está entre vós” (Lc 17:21), conectando-o com as ações concretas de Jesus junto aos marginalizados.
Ao contrário dos escritos pseudoepígrafos, nos sinóticos o Reino de Deus não é apenas futuro, mas já irrompe na história através da Pessoa e Obra de Jesus. Isso leva Joachim Jeremias a afirmar que Jesus trouxe uma nova compreensão do Reino, marcada por uma "escatologia realizada"⁷. George E. Ladd complementa que nos Evangelhos há uma tensão entre o “já” e o “ainda não” do Reino⁸.
3. Convergências e Divergências
A literatura pseudoepígrafa e os Evangelhos compartilham a esperança escatológica e o anseio por uma justiça divina definitiva. Ambos esperam um Reino que reverte o domínio do mal e estabelece a soberania de Deus. Contudo, divergem profundamente quanto à sua natureza e manifestação.
Nos pseudoepígrafos, o Reino é futuro, celestial, ou político-teocrático, instaurado por juízo. Nos Evangelhos, é pessoalizado no Senhor Jesus, presente no agora e inaugurado em sua Missão, Morte e Ressurreição. Para N. T. Wright, essa redefinição é radical: o Reino que muitos esperavam como uma libertação nacional, Jesus redefine como um movimento de reconciliação, perdão e amor ao inimigo⁹.
Enquanto a literatura pseudoepígrafa enxerga a história como decadente, aguardando uma ruptura divina, os Evangelhos propõem que essa ruptura já começou em Jesus. O Reino torna-se, assim, um chamado ético, comunitário e redentivo não apenas uma esperança escatológica.
Conclusão
A análise do conceito de Reino de Deus na literatura pseudoepígrafa judaica revela um anseio comum à tradição judaica por justiça, renovação e intervenção divina. No entanto, os Evangelhos sinóticos apresentam uma abordagem peculiar e inovadora, na qual o Reino se realiza parcialmente no presente por meio da pessoa e obra de Jesus. Essa nova perspectiva transforma o entendimento do Reino de Deus de um evento apocalíptico futuro para uma realidade dinâmica em construção. A tensão entre o "já" e o "ainda não" do Reino desafia tanto leitores antigos quanto modernos a viverem a fé com esperança ativa. Como sintetiza Oscar Cullmann, o Reino de Deus está “inaugurado mas não consumado”¹⁰ — já começou, mas aguarda sua plenitude final.
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Notas e Referências
1. NICKELSBURG, George W. E. Jewish Literature Between the Bible and the Mishnah: A Historical and Literary Introduction. Minneapolis: Fortress Press, 2005. p. 67–72.
2. COLLINS, John J. The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. p. 33–49.
3. VANDERKAM, James C. Enoch and the Growth of an Apocalyptic Tradition. Washington: Catholic Biblical Association of America, 1984. p. 89–115.
4. STONE, Michael E. Fourth Ezra: A Commentary on the Book of Fourth Ezra. Minneapolis: Fortress Press, 1990. p. 21–46.
5. WRIGHT, N. T. The New Testament and the People of God. Minneapolis: Fortress Press, 1992. p. 280–292.
6. JEREMIAS, Joachim. The Parables of Jesus. London: SCM Press, 1972. p. 75–83.
7. JEREMIAS, Joachim. The Proclamation of Jesus. Philadelphia: Fortress Press, 1971. p. 45–64.
8. LADD, George Eldon. The Presence of the Future: The Eschatology of Biblical Realism. Grand Rapids: Eerdmans, 1974. p. 127–139.
9. WRIGHT, N. T. Jesus and the Victory of God. Minneapolis: Fortress Press, 1996. p. 200–229.
10. CULLMANN, Oscar. Christ and Time: The Primitive Christian Conception of Time and History. Philadelphia: Westminster Press, 1964. p. 81–95.